Espaço do Diário do Minho

O que por aí vai…
4 Mar 2019
Narciso Mendes

Pelo menos para mim, que já conto com uma proveta idade, longe vão os tempos em cujas lutas laborais eram caricaturadas nas páginas de certos jornais e panfletos, que a esquerda mais ortodoxa distribuía pela população, com pré-avisos de greve a encetar em determinadas datas.

Caricaturas, essas, representadas pela figura de um patrão, gordo, sentado ao pé de um cofre a fumar charuto, tendo em frente imagens dos trabalhadores grevistas a manifestarem-se com bandeirinhas vermelhas.

Nessa altura, sentia essa conquista de Abril como equilibrada e justa, uma vez que existiam muitos salários de miséria, as condições de trabalho não eram as melhores e o número de horas praticadas tornava-se excessivo em determinadas classes profissionais.

Daí o ter visto, durante e a seguir ao “PREC”, mais greves no setor privado do que no público. O que hoje em dia não sucede, pois acabamos por sentir mais poderio reivindicativo neste, do que naquele. Basta notarmos que, nestas últimas greves, só os professores e os enfermeiros, dos hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS), é que se manifestam.

Enquanto os dos privados se vão mantendo calados e quedos perante a onda de greves. Uma mudança de paradigma, em que o tal sujeito do charuto passa a ser o próprio Estado, ou seja, o Governo representado pelo Ministro, Centeno, das Finanças.

Ora, com o que por aí vai em termos de greves na enfermagem não se pode augurar nada de bom, não só para os utentes – que ficam a aguardar cirurgias, exames de diagnóstico e, por conseguinte, consultas sem os quais nada adiantam uma vez que sem elas os médicos nada podem fazer, a não ser voltarem à carga com novas requisições – como também para o próprio SNS, hoje, em crise.

Tratando-se de uma luta que por muito justa que possa ser fragiliza, ainda mais, as pessoas em sofrimento e em que num minuto podem vir a perder a sua vida, por falta de assistência. Senão, vejam-se as 5031 cirurgias canceladas de 31 de janeiro a 19 de fevereiro.

Não é por acaso que ao ler entrevista da antiga bastonária da Ordem dos Enfermeiros ao DN, ela própria disse: «nunca defenderia uma greve cirúrgica. Porque sempre soube que assegurar serviços mínimos em áreas como o de medicina, por exemplo, que fica reduzido ao mínimo, é de uma dureza brutal», afirmou. E mais adiante esclareceu Maria Augusta de Sousa: «nenhum enfermeiro deve deixar de fazer aquiloessencial para os doentes.

O que não quero com isto dizer que nãoque tenham direito à greve. Porém há greves, tão visíveis como as que estão em curso, mas que mostram o reconhecimento que os cidadãos têm pela classe. Coisa que está em causa nas iniciativas presentes» atirou. E foi mais longe: «o papel da Ordem dos Enfermeiros, que estáestatutariamente garantido, é a salvaguarda da qualidade dos cuidados aos cidadãos», lembrou.

E acrescentou: «a Ordem existe para garantir aoscidadãos cuidados de enfermagem corretos. Enquanto os sindicatos existem para garantir os direitos dos enfermeiros como trabalhadores que são. E os cidadãos têm o direito de exigirem à Ordem a garantia de que os serviços de enfermagem são de qualidade e de acordo com aquilo que a profissão tem hoje definido no seu estatuto profissional e que tem de respeitar a deontologia profissional», concluiu.

De facto, isto já não parecem greves mas, com o que por aí vai, mais se assemelham a guerrilhas entre os enfermeiros e o Ministério da Saúde.

Endurecidas a tal ponto de se ver forçado a tomar a iniciativa de recorrer à requisição civil destes profissionais. Enquanto, estes, se queixam de violações do direito à greve por parte do Governo, num braço de ferro de consequências imprevisíveis, face ao impasse criado nas negociações.

Greves que voltarão enquanto durar a plataforma de “crowdfunding” que subsidia as lutas. Uma nova forma de remuneração grevista com a garantia de salários o que poderá, mais tarde, vir a por em causa o direito à greve, face à Constituição.

Enfim, o que por aí vai.



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