Espaço do Diário do Minho

Tu, pobre de espírito
27 Fev 2019
António Lima Martins

O ano mudou, o espírito de luz da época natalícia e da viragem ecoam, mas algumas das linhas mais sombrias da humanidade, que se espraiam num qualquer tropeço da nossa existência hão-de manter-se, fazem parte da condição de humano ou de alguns humanos.

São aqueles ribeiros que se julgam rios, o trigo que não passa de joio. São os pobres de espírito que se sustentam com “atributos” velhos do tempo do diabo, mas renovados a cada dia e alimentados de veneno, das profundezas da desgraça alheia ou das migalhas atiradas por quem dependem.

A pobreza de espírito é um estado de vida que progride com a perda de valores, espelho da mediocridade civilizacional! Parte do ser, repleta de erupções descontroladas de forças contrárias, de impulsividades negativas ou pensamentos estruturados de maldade, não refreada ou expurgada por algum raio de inteligência, talvez apenas de bondade.

Os seus discípulos rebaixam gratuitamente, censuram com violência desmedida tudo o que é diferente, sejam as ideias, sejam os comportamentos, seja aquilo que lhes faz frente.

O pobre de espírito rodeia para, no momento desprotegido do outro, ferroar; não quer ascender a rico de espírito, antes ser reconhecido por aqueles que o podem alavancar; e têm esse reconhecimento se os reconhecedores – digamos assim – já se encontram em grau superior da escala da pobreza espiritual, assim se sustentando um e outro da putrefacção; ou não são reconhecidos e aí destilarão e dirigirão a sua fúria também para quem, rico de espírito, teve a “leviandade” de o apoquentar.

O pobre de espírito ignora os valores, só expele a vontade de usar e deitar fora. Vive na perda gradual de referências, na dispersão de valores, atrás de um rumor, de um sussurro, de um diz que disse, de um ecrã, de um teclado, de uma cortina digital. Vão-se os princípios, valores, ética e os fundamentos do que somos e para onde queremos ir; com ou sem religião, com ou sem constituição, com ou sem valores axiológicos do ser humano e do direito natural, do que é ou do que deve ser!

Vá, digam sim a tudo, façam cara de falsos, escondam nas entranhas a vossa educação de vão de escada só para ascenderem num qualquer lugar da vida e descerem uns degraus das escadas dos valores.

Vá lá, aproveitem os e-mail’s, facebook’s e redes sociais afins dos outros e remoam, façam uma, duas, três cópias invejosas e maldicentes, mandem para os vossos mestres, donos, senhores… encham os vossos espíritos de vazio, de asco e fiquem bem! Bem mal! Sim, é para ti que falo, sim é para o ninguém.

O que este vácuo de inteligência, racional, emocional, educacional promove é a sombra; ignora que não ascende, rasteja, não se valoriza, achincalha-se, não engrandece, esfuma-se, na hora, minuto, segundo da verdade.

Afinal, tudo o que fazem sabe-se! Como? Quem recebe, também dá; igual a vós há tantos e tantas que se batem para contar o que contais, murmurais, difundis, desejais, invejais. E vós, pobres de espírito, sorris continuando onde não deixam de estar: no fundinho gordo das vossas vísceras ácidas, no escuro povoado das trevas!

Eu que sou um filho de Abril, das liberdades, do definhamento do pidismo, bufismo e outros ismos que tais, vejo hoje os pobres de espírito a cavalgar a onda das redes sociais, das denúncias e queixas anónimas, das delações mais ou menos premiadas, das calúnias, das insídias, das malvadezas, que se sobreerguem das águas lodosas de ódios, raivas ou vacuidades! Vemos o crescendo de perigosas reminiscências de um Estado Velho que se dizia Novo.

O pobre de espírito está em tudo, em todo o lado, grassa e gravita na órbita da escuridão a que todos, num dado momento, num apontamento, somos compelidos a visitar. A diferença é entre aqueles que deixam a sua consciência apagar-se e os que emergem conscientes da necessidade de ultrapassar esse sopro.

Não é uma doença do físico ou da mente, mas da alma. Não deixemos que estes (sem substância, mas apenas com forma) na Família, na Sociedade, no Estado, nos corredores da Política ou da Justiça, ganhem espaço, ânimo e fôlego. Deve ser parte da nossa busca incessante pela benignidade, pela justiça, pelo ser o que deve ser!



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