Espaço do Diário do Minho

Tratar bem os animais. Mas melhor ainda o ser humano.
9 Fev 2019
P. Rui Rosas da Silva

Abandono (criminalização)– “Quem, tendo o dever de guardar, vigiar ou assistir animal de companhia, o abandonar, pondo desse modo em perigo a sua alimentação e a prestação de cuidados que lhe são devidos, é punido com pena de prisão até seis meses ou com pena de multa até 60 dias”.

Esta legislação, vigente no nosso país, não deve ser discutida. Temos todos obrigação de tratar bem os animais, nomeadamente aqueles que fazem parte da nossa vida diária. São, muitas vezes, companheiros inseparáveis, que não deixam, sobretudo na velhice, de acompanhar quem os trata bem. Abandoná-los ao “Deus-dará”, como costuma dizer-se, é uma manifestação de falta de gratidão e, ao mesmo tempo, de desprezo. Um animal que aj

uda o homem a ter menos solidão, apesar do trabalho que pode dar, é um ser benéfico. E constata-se que são parceiros indispensáveis, ou, pelo menos, muito oportunos, a quem vive só e necessita de atenuar o seu isolamento.

É óbvio que um cão ou um gato não podem substituir um ser humano. E é lamentável que, muitas vezes, alguém que chega à ancianidade seja desleixadamente abandonado pelos seus parentes mais próximos. Os lares de terceira idade são fundamentais. Mas, por vezes, funcionam como uma espécie de lugar para onde se catapultam os pais ou os avós, porque os seus familiares não estão “para os aturar”, pura e simplesmente.

O egoísmo dos mais novos sedimenta estas soluções. E é frequente pressentir nos moradores destas entidades – que, repetimos, desempenham um papel indispensável na sociedade actual – uma mágoa profunda em relação aos seus filhos ou netos, porque raramente os visitam, não telefonam, não se interessam pelo seu dia-a-dia, tão entregues estão à sua vida fechada, que transformam numa espécie de quintal enquistado, cercado pelas barreiras dum verrinoso bem-estar comodista.

Sintomática a lamentação escutada numa visita a uma instituição desse tipo: “O meu filho já não me telefona, nem vem ver-me. Para ele, eu já morri. Tenho dúvidas que esteja presente no meu funeral, apesar de eu ter tido o cuidado de lhe deixar o dinheiro suficiente para esse efeito, porque não quero sobrecarregá-lo…”.

Mas não sejamos negativos. Às vezes, colocar o pai, a mãe ou ambos num lar de idosos é um acto de apreço e de caridade por parte dos seus descendentes. E conhecem-se muitos casos em que estes fazem não só sacrifício por se separarem deles, como até por contribuírem monetariamente para a sua manutenção num lugar onde, afinal, são bem cuidados em todos os aspectos e podem receber com alegria a visita frequente dos membros mais próximos da sua família, que não se esquecem do que lhes devem e do amor e do carinho com que os continuam a tratar, apesar da separação.

Em contrapartida, e voltamos ao discurso de há pouco, há filhos que se desembaraçam dos pais sem dó nem piedade. Nem sequer têm a precaução de procurar “exilá-los” numa casa da terceira idade, onde recebam as atenções mínimas.

Pura e simplesmente, largam-os, por exemplo, num hospital multitudinário, quando as ideias e a cabeça dos seus progenitores já não conseguem dar conta de si nem dos seus. E utilizam, entre outros, dois métodos: inscrevem-nos numa consulta, falsificando o número do seu telefone e da sua morada, ou os esquecem por ali. Em ambas as circunstâncias: desaparecem depois da sua vista sem deixar rasto.

Às vezes, apesar dos disfarces e da fuga, ainda conseguem ser localizados. Mas negam-se de modo absoluto a tomar conta de quem abandonaram, porque não têm possibilidades de os receber na sua casa, além de que se trata – argumentam –, não dum assunto de menores de idade, mas de cidadãos de quem o estado tem obrigação de proteger. É aberrante este panorama. Por um cão abandonado, pode ir-se para a cadeia. Mas por um pai ou por pais que os seus descendentes repudiam de modo execrando, o Estado que resolva a situação.

A verdade é que o ser humano tem um valor muito relativo no nosso país, como é prova evidente a facilidade com que a autoridade financia e facilita o aborto. Não sei se há estatísticas rigorosas que indiquem quantos nascituros são atirados anualmente para o caixote do lixo ou do esquecimento:

Conhecê-las levar-nos-ia à maior das tristezas. Quando a nossa vida deixa de ser um valor intocável, brotam todas as enormidades éticas na sociedade. E quem assim pensa, não encontra muita diferença entre um bebé que se gera no seio materno (e pode suprimir-se com o apoio legal e protector do estado) e um ancião, mais ou menos caquéctico, que só serve para dar trabalho e apoquentar a existência de quem tem de cuidar dele.

Apesar de tudo, observará, é um cidadão. O Estado que resolva a situação…



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