Espaço do Diário do Minho

Deveres do doente
7 Fev 2019
Silva Araújo

1. Na última semana, a propósito da mensagem do Papa Francisco para o XXVII Dia Mundial do Doente, falei dos direitos do doente. Da dignidade que lhe deve ser reconhecida e da humanidade com que deve ser tratado.

Mas o doente, além de sujeito de direitos, também é sujeito de deveres sobre que hoje me proponho refletir.

2. Sem pretender ser exaustivo, enumero alguns dos que considero serem deveres de quem sofre:

a) Aceitar a situação e as limitações que traz. Aconselhável é saber viver com a doença. Procurar viver o melhor que puder o dia de hoje, não antecipando sofrimentos com dores que se imagina poderão surgir amanhã.

b) Procurar ser um bom doente. Obedecer às pessoas que dele cuidam, consciente de que fazem o melhor que sabem e podem. As resmunguices só criam mau ambiente.

c) Que o doente faça tudo quanto depende de si para recuperar a saúde ou, pelo menos, minorar o sofrimento: seguir as orientações do médico; deixar-se tratar; tomar a medicação que lhe é prescrita, quando e como o é; colaborar com quem lhe presta assistência.

d) Que o doente seja humilde. Ponha de lado a auto-suficiência e aceite ser dependente. E não se esqueça de dizer «obrigado» a quem o serve.

e) Aconselhável é, também, que o doente se deixe de teimosias e caprichos. Que, mesmo aceitando o estado em que se encontra, se esforce por reagir. Que se não dê à moleza e ao mimo. Que não use a doença como pretexto para receber desaconselháveis gestos de carinho.

Isto não significa que, quem lhe assiste, não reconheça que, dada a situação de debilidade em que se encontra, deve ter para com ele muita compreensão e paciência. Sem o amimalhar em excesso, que lhe não falte com os recomendáveis gestos de ternura.

f) Que o doente não ande sempre com queixinhas, sobrecarregando os outros com problemas que estes não sabem ou não podem solucionar. Um bom doente evita fazer sofrer.

g) O facto de ter problemas de saúde não deve ser motivo para que o doente se considere um inútil.

3. Não sou dos que procuram o sofrimento. Ele encarregar-se-á de bater à porta e de entrar, sem ser convidado. O sofrimento físico, o sofrimento moral, ou os dois ao mesmo tempo. Quando surgir, que cada um o saiba viver.

Escreveu um dia José Régio: «A minha Dor, vesti-a de brocado, /fi-la cantar um choro em melopeia, / ergui-lhe um trono de oiro imaculado, /ajoelhei de mãos postas e adorei-a».

Penso serem possíveis, perante o sofrimento, três atitudes: a revolta, a aceitação estóica do tem que ser, a sublimação.

Nenhuma delas evita a dor. A primeira tem a agravante de complicar mais a situação e de fazer sofrer os outros. A terceira possui a vantagem de dar um sentido ao sofrimento e de o converter em fonte de mérito sobrenatural. É o que se recomenda aos cristãos: que unam o próprio sofrimento ao sofrimento redentor de Cristo. O cristão que o é a sério vive o sofrimento como caminho de santidade.

O leito de um doente pode ser um altar, como aconteceu com a Beata Alexandrina.

Com a forma como souberam viver o sofrimento pessoas há que fizeram muito bem aos outros.

4. Dir-me-ão ser fácil falar do sofrimento quando se tem saúde. Como falar da fome quando se tem o estômago composto. É verdade, como veem.

Não pretendo, com o que escrevo, fazer sofrer mais. Longe de mim tal intenção. Só quero ajudar a refletir e a abrir caminho.

A minha solidariedade para com todos os que sofrem.



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