Espaço do Diário do Minho

Uns pingos de humor… e verdade
2 Fev 2019
Rosas de Assis

Um homem comprou uma quinta que estava abandonada,e por isso trabalhou arduamente para rentabilizar o capital investido. Um dia o pároco da aldeia visitou-o e deu-lhe os parabéns pelo trabalho desenvolvido, fazendo-lhe notar como era maravilhoso o que Deus e o homem podem fazer quando trabalham em conjunto.

É verdade, disse o dono da quinta, com ar menos convincente, para depois acrescentar:

Talvez tenha razão, mas o senhor padre devia ter visto a quinta quando Deus estava sozinho a administrá-la!…

Esta história que reflete uma estória pode aplicar-se na vida e no desenvolvimento cultural, social e humano de uma pessoa ou de um povo. Por vezes, queremos fazer tudo sozinhos, isolados. Outras vezes, queremos tudo nem que seja comer o trabalho e o sacrifício de outros. Nem sempre bem preparados queremos até atribuir o êxito ou o fracasso às nossas habilidades, labiabilidades ou falta delas. O mais comum é querer comer ou estragar o que outros fizeram, esquecendo os deveres do que significa viver “numa casa comum” que deveria ser a glória, a honra e orgulho de todos.

Quando vejo tantas greves, reivindicações e atentados à dignidade humana, fico perplexo, e penso que vivemos num manicómio de idiotas, ou sem respeito de uns pelos outros. Com falta de sentido ético, de moral, ascese, disciplina e contenção, esmagam-se ou atropelam-se direitos, esquecem-se deveres. Tenta-se comer o pão que falta a outros e hipoteca-se o futuro, tornando-o mais amargo para os mais débeis e marginalizados.

Esquece-se a solidariedade e subsidiariedade, que devia ser a máxima de um povo que hoje sacrifica alguma coisa para ter melhor futuro para si e para os filhos e netos. Talvez os exemplos não sejam muito convincentes. Mesmo assim teremos todos de nos pautar por uma norma que torne possivel a sobrevivência de uns e de outros.

Todo o ser humano é uma componente somática e desenvolve-se num meio. É um ser histórico produtor e produto da história.Se a todo o homem que vem a este mundo compete plantar uma flor, ao menos não deve deixar murchar as que encontrou. A todos se pede esta missão: na ecologia, na família, na sociedade, na sua classe, no grupo, na Igreja. Se é verdade que o espírito se enriquece com o que recebe, o coração mais se dilata com o que se dá.

Rilke dizia mesmo que ser-se amado é consumir-se em chamas, todavia amar é resplandecer de uma luz inesgotável. Esta, por vezes, parece esconder-se. No entanto, onde há luz, podem também existir sombras. Mas não se pode toldar ou asfixiar a Luz porque também há sombras nos agentes. Estes são humanos. Por isso, ninguém ficou cego por contemplar o lado brilhante da vida, dizia Bergmann.

 Se nós os homens, como dizia Kafka, somos todos estrangeiros num mundo glacial, Malraux assegurava mesmo que no mais íntimo do coração, estão alapadas a tortura a frieza e a morte. A religião,com o sentido de Deus e dos outros, desempenha um papel importante na humanização, transformação e transfiguração da vida.

Na verdade, a técnica e a economia não chegam para um desenvolvimento harmónico das nossas concepções morais da nossa vontade de realizar em conjunto um esforço construtivo ao serviço de todos, mormente dos mais humildes e sacrificados com as nossas reivindicações e direitos.

Paul Ricoeur dizia: “Eu auto-expresso-me ao expressar o mundo; eu exploro a minha própria sacralidade ao tentar decifrar a do mundo”. Mesmo assim, podem existir ilusões que se pagam caro com a vida.

Talvez estejamos a assistir a uma nova hecatombe que nos pode fazer ressurgir das cinzas. Mas quem pagará pelas consequências e desvios acrescidos?



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