Espaço do Diário do Minho

Justiça e unidade
17 Jan 2019
Silva Araújo

1.«Procurarás a justiça, nada mais que a justiça» é o tema proposto para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que decorre entre 18 e 25 de janeiro. Foi extraído do livro do Deuteronómio (16, 18-20) e preparado pelos cristãos da Indonésia.

Com uma população de 265 milhões, a Indonésia é o país que tem a maior população muçulmana (86%). 10% dos indonésios são cristãos de tradições diversas. Tanto em termos de população como de extensão de terra, é a maior nação do sudeste da Ásia. Tem mais de 17.000 ilhas, 1.340 diferentes grupos étnicos e mais de 740 línguas locais.

É um país onde muito do crescimento económico tem sido baseado num sistema centrado na competição. Onde a corrupção enfraquece a justiça e a implementação da lei. Daí a escolha do tema “Procurarás a justiça. Nada mais que a justiça”.

2.Um dos comportamentos que contribui para a unidade – não apenas entre os cristãos mas entre todas as pessoas, independentemente da sua profissão religiosa – é, de facto, a justiça. A injustiça cava divisões.

Trabalhar pela unidade exige se procure construir uma sociedade onde não exista qualquer forma de discriminação, baseada seja no que for. Quem reza Pai Nosso vê em Deus um pai comum e procura viver a autêntica fraternidade.

A justiça exige que se não identifique unidade com uniformidade mas se respeite a legítima diversidade entre as pessoas. Todos somos iguais – temos a mesma dignidade de seres humanos e de filhos de Deus – e diferentes: cada um tem o seu feitio, a sua mentalidade, a sua maneira de ser.

Não há justiça onde as pessoas se não sentem respeitadas na sua dignidade e nos seus direitos. Onde não há condições humanas de trabalho. Onde a pessoa é tratada como um número; como mais um instrumento de produção. Onde o trabalho não é dignamente remunerado. Onde se não procede a uma justa distribuição da riqueza e se não abate o fosso entre os muito ricos e os muito pobres.

É justa uma sociedade onde não há qualquer forma de vigarice e se não dá cobertura ao chicoespertismo. Onde não há exploradores e explorados; senhores e escravos. Onde no mundo dos negócios existe uma honestidade a toda a prova.

A justiça exige que ninguém viva à custa de salários mal pagos nem de salários em atraso. Que se procure que haja trabalho para todos. Que se não fomente a preguiça e se criem condições para que todos possam viver com dignidade. Que o valor das pessoas não esteja no que têm mas no que são. Que se não abuse da necessidade dos outros.

Não é justa uma sociedade onde há qualquer espécie de especulação, de corrupção, de protecionismo injustificado. Onde existem os filhos de papá, os meninos bonitos e os outros. Onde há a preocupação de enriquecer depressa e de qualquer maneira. Onde as pessoas justificam com a legalidade comportamentos eticamente reprováveis.

Sem justiça pode haver um simulacro de unidade mas verdadeira unidade não há.

3.Noque respeita à justiça a prática de pessoas que se declaram cristãs nem sempre é exemplar, pelo que o tema proposto deve levar a um exame de consciência. O trabalho nem sempre é devidamente remunerado. As relações entre as pessoas nem sempre são transparentes. Há comunidades de trabalho onde não existe diálogo entre empregadores e empregados. Às vezes abusa-se das baixas remunerações e da boa vontade de voluntários.

Construir a unidade entre os cristãos não consiste apenas na obediência à mesma autoridade, na profissão da mesma doutrina, na aceitação das mesmas normas disciplinares. E se, fazendo tudo isto, as pessoas se sentirem injustiçadas, injustamente lesadas, coisificadas?

Fala-se muito de caridade mas às vezes esquece-se a justiça. E a falta de justiça, longe de contribuir para a unidade, gera a indignação e a revolta.



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