Espaço do Diário do Minho

Armadilha do ‘azul e rosa’
14 Jan 2019
António Sílvio Couto

Vindo do outro lado do Atlântico chegou à nossa sociedade a discussão do ‘azul e rosa’, isto é, a insistência em conotar com estas cores o sexo das pessoas: azul para rapaz e rosa para rapariga. Numa declaração mais fundamentalista – no correto e essencial significado do termo – das cores do sexo masculino e do sexo feminino, respetivamente.

Será este o problema essencial na vida daquele país? Teremos nós de entrar numa discussão, que tem tanto de inoportuna quanto de patética? Para ir ao fundo do problema – a ideologia de género – será preciso arranjar fait-divers com perda de tempo e de significado? Trazer novamente este assunto para a praça pública, no contexto geral e nacional, será algo de sério ou de mero folclore sem engenho?

= Parece, no entanto, importante tratar esta questão com racionalidade e não reduzi-la a um amontoado de emoções, muitas delas mal digeridas e, sobretudo, vulgarizar uma discussão que devia ser serena e sensata. Num tempo tão marcado por interesses de lóbis, este assunto ‘azul e rosa’ é dos mais fraturantes em certas sociedades e sê-lo-á ainda mais se forem introduzidos acepipes de natureza política, partidária ou mesmo religiosa/moral…

Este assunto pode até camuflar angústias a quem vive o problema de forma dorida, misturando tudo e o seu contrário para que se vá disfarçando outros problemas e adiando a solução do que é sério. Isto não é uma questão de direita nem de esquerda, é um assunto da personalidade da pessoa humana, no concreto de alguém que tem, vive e sofre consigo mesmo e no relacionamento com os outros. Mal vai o problema, seja ele qual for, se o próprio não se sente parte da solução e entrega esta a outrem que o pode manipular e usar como e quando mais lhe convier.

= De facto, não será pela cor da roupa que iremos guiar-nos nem ficaremos pendurados na bandeira do ‘arco-íris’ para sermos mais ou menos defensores da igual dignidade das pessoas, tenham elas a orientação sexual que manifestem. Com efeito, esta questão do ‘azul e rosa’ – adstrito ao sexo que se considere – não passa dum falso problema e, por vezes, não é quem muito fala e reclama que mais faz pelo reconhecimento e a aceitação da diferença. Efetivamente, torna-se complicado discernir o que é ou pode ser congénito daquilo que é ou pode ser influência do meio e mesmo da educação. Por isso, não podemos deixar-nos condicionar por ‘modas’ nem por ‘fantasmas’, sejam de que coloração se apresentarem, pois cada pessoa é única e irrepetível, merecendo ser tratada com respeito, com sensatez e, sobretudo, com o máximo da dignidade…coisa que certos setores não têm deixado que seja feito, tentando impor a tal ‘ideologia de género’, que mais não é do que um género de ideologia, pretensamente progressista, mas manipuladora dos sentimentos e das emoções das pessoas mais fragilizadas e, por vezes, marginalizadas…

= Valerá a pena reler o que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre este assunto: «Um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente enraizadas. Esta inclinação objetivamente desordenada constitui, para a maioria, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus em sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição» (n.º 2358)

Toda a forma de discriminação é considerada ofensiva. Também neste campo ela é assim… Tudo o resto – o favorecimento em particular – por ser deste modo não será maior discriminação de quem não é dessa forma? Ou será obrigatório deixar de ser normal para se ser exceção? Excecionar em excesso faz disso normalidade? 

= Por favor: haja maior bom senso e superior racionalidade, seja lá a cor de que se vista ou pela qual se tenha preferência, em vestir, despir ou assumir!

Nada vai um povo ou um país se se deixa enredar por temas que sirvam para distrair do essencial e se a dita opinião pública anda a reboque dos intuitos de lóbis. Triste sina esta da ‘nossa’ democracia!



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