Espaço do Diário do Minho

A última aula
11 Jan 2019
Carlos Mangas

Assisti recentemente à última aula de um ex-professor universitário onde, além de uma lição de genética em que pela primeira vez ouvi falar do monstro esperançoso, fui brindado também com a sua história de vida. Enquanto aprendia novos termos e ouvia histórias dos inícios da minha faculdade, dei comigo a pensar: numa última aula do que falaria eu? Com toda a certeza, daquilo que mais me marcou, também. 

Cada geração teve os seus momentos em função da época vivida. Eu poderia falar da minha infância feliz no Gerês e da liberdade de andar na rua sozinho, a qualquer hora do dia, deixando a chave na porta sem preocupações de raptos ou assaltos.

De jogar futebol num espaço junto ao rio e, às vezes, ter de me esforçar por manter o equilíbrio nas pedras do mesmo, para “pescar” a bola de um passe transviado; de jogar, futebol também, num campo de ténis do hotel onde, à modalidade coletiva, juntávamos o atletismo quando o responsável do estabelecimento surgia de vara na mão; da sorte de não termos familiares a assistir aos jogos, o que permitia que cada um jogasse em função da apetência técnica e autodidatismo tático; o remate, o passe, o drible, o desarme ou a defesa, a serem feitos de acordo com o que víamos e percecionávamos e não pelo que nos era soprado da bancada ou de treinadores. 

Posteriormente viriam os anos de internato no D. Diogo, com aulas no Sá de Miranda. Entrar no colégio com 12 anos e conviver diariamente com alunos mais velhos, faz-nos crescer de forma acelerada. Também como aluno, no liceu Sá de Miranda na segunda metade da década de 70, em plena época revolucionária, as greves, RGAs e lutas partidárias, vi este estabelecimento ser transformado num espaço de aprendizagem acelerada para a vida.

Seguiu-se a Faculdade onde um percurso limpo de cinco anos, originou que ainda hoje incentive os finalistas do secundário a escolher um curso de acordo com motivações intrínsecas (é como o código postal – meio caminho andado). É na faculdade também que se limam as últimas arestas daquilo que seremos enquanto adultos. 

Veio depois o tempo de entrar no mundo do trabalho. E aqui, poderia afirmar que no futebol e na docência, me realizei profissionalmente. Dizem que os recordes existem para ser batidos e que a função do professor é ser ultrapassado pelos seus alunos. Sinto ter dado o meu contributo para que tal acontecesse (no futebol) e continue a acontecer, na escola. 

No futebol de formação não optei pelo caminho fácil de apostar nos kg e nos cm para ganhar. Privilegiei a qualidade futebolística em detrimento destas unidades de medida. Os (meus) meninos/jovens de outrora mostraram depois, na sua carreira, a assertividade das opções. 

Como docente ainda acredito que através do desporto posso ensinar para a vida. Como disse o meu ex-professor a nosso respeito, também “continuarei a tentar fazê-los crescer, sem os envelhecer, pedindo-lhes em troca, a inquietude e irreverência próprias das suas idades para me manterem atento e alerta”. 



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