Espaço do Diário do Minho

Construir e defender a democracia
10 Jan 2019
Silva Araújo

1.Um dos temas da mensagem de Ano Novo do senhor Presidente da República foi a defesa da democracia.

«Não há ditadura, mesmo a mais sedutora, que substitua a democracia, mesmo a mais imperfeita», disse.

Mas advertiu: «Não há democracia que dure onde apenas alguns, poucos, concentrem tanto quanto todos os demais».

«Pensem, alertou também, como demorou tempo e foi custoso pôr de pé uma democracia e como é fácil destruí-la, com arrogâncias intoleráveis, com promessas impossíveis, com apelos sem realismo, com radicalismos temerários, com riscos indesejáveis».

Winston Churchill afirmou um dia:

«Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos».

«A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela», disse ainda.

A democracia tem exigências e fragilidades. Houve ditadores que começaram por ser eleitos democraticamente.

2.A democracia constrói-se com verdadeiros democratas, e não com ditadores travestidos de democratas.

Constrói-se com pessoas que respeitam os outros na sua dignidade e nos seus direitos.

Com pessoas que reconhecem e respeitam os legítimos limites da liberdade.

Com pessoas que propõem com toda a clareza o seu pensamento e respeitam aos outros o direito de discordarem.

Com pessoas que sabem discordar sem ofender, sem agredir física ou verbalmente, sem pretender fazer valer as suas discutíveis opiniões recorrendo à razão da força contra a força da razão.

Com pessoas que se não consideram donas da verdade absoluta.

Com pessoas para quem o diálogo é o direito de falar e o dever de ouvir.

Com pessoas para quem há valores intocáveis, como a vida, a verdade, a justiça, a honestidade, o direito ao bom nome e à legítima defesa, o direito a repor a verdade quando esta é ofendida

Com pessoas que sabem servir sem se servirem e recusam viver à custa dos outros, explorando-os seja de que modo for.

A democracia constrói-se com pessoas dedicadas à causa pública, que colocam o bem comum acima dos interesses individuais.

Não há democracia sem justiça social, sem combate à pobreza, sem correção das desigualdades.

«Podemos e devemos ter a ambição de ultrapassar a condenação de um de cada cinco portugueses à pobreza e a fatalidade de termos Portugais a ritmos diferentes, com horizontes muito desiguais», advertiu o senhor Presidente da República.

3.A democracia não se constrói com castas de privilegiados que, indiferentes em relação ao que se passa com o comum dos mortais, defendem privilégios e regalias.

Não se constrói com palavras, mas com obras.

A construção da democracia exige que se atue com transparência, se lute contra as diversas formas de corrupção, se defenda uma justiça igual para todos.

4.A democracia exige uma comunicação social o mais possível livre e independente. Que não deixe de denunciar abusos e prepotências, sejam de que forem.

Só uma Comunicação Social o mais possível livre e independente exerce, como lhe compete, as funções de quarto poder.

Uma Comunicação Social comprometida é uma comunicação amordaçada ou apenas voltada para os interesses de quem a controla. Não contribui para a correta informação dos cidadãos e para a formação de uma sadia opinião pública, indispensáveis numa verdadeira democracia.

5.Não quero ser exagerado nem facioso mas estou persuadido da existência de uma «democrática» ditadura de minorias. Minorias arrogantes. Minorias atrevidas. Minorias fanáticas. Minorias que se apresentam como donas da verdade e únicos seres pensantes. Minorias que teimam, a todo o custo, fazer valer os seus critérios e as suas opiniões.

Minorias para quem não há valores a respeitar, nem princípios, nem tradições. Minorias que alertam para os perigos da extrema direta sem uma palavra em relação aos perigos, que não são menores, da extrema esquerda. Minorias que, beneficiando de apoios interesseiros, levam a água ao seu moinho.



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