Espaço do Diário do Minho

As máximas morais genuinamente populares ainda serão devidamente respeitadas?
10 Jan 2019
Artur Gonçalves Fernandes

De um modo geral, muitas pessoas e uma grande parte das organizações sociais aproveitam os períodos festivos para relembrar alguns princípios morais que fazem parte integrante do património cultural humano, sobretudo do genuinamente popular.

É, pois, sabido por todos que essas regras comportamentais, indispensáveis a uma boa convivência entre os homens, cristalizaram em máximas da linguagem corrente e até científica. No entanto, elas, para muitos, são vistas apenas por um prisma meramente rotineiro e com intenções demasiadamente interesseiras.

Quando as referem, no fundo, lá está subjacente o proveito financeiro, o cariz consumista e o lucro fácil. Muitas dessas pessoas distorcem a essência dos grandes valores humanos e gostam de navegar no meio dos ingénuos, dos incautos e do descuidadamente crédulo. São espaços sociais onde elas se sentem bem.

Aliás, o manancial do referido saber moral habita em todas as classes sociais. Trata-se de um saber espontâneo e naturalmente humano que conservou sempre a sua autoridade sobre os outros saberes muito elaborados. E como não é possível eliminá-lo, os oportunistas procuram as estratégias adequadas para o aproveitar ardilosamente, tentando auferir dele os proveitos almejados.

Assim, tais normas éticas continuam a correr vários riscos no dia a dia. O mau uso da liberdade humana altera, tantas vezes, a sua genuína essência. Há culturas ou ideologias que vêm desvirtuando a verdadeira onticidade dessas máximas, lendo-as à sua maneira e dando-lhes a interpretação que lhes convém.

Foi assim que surgiu a lei do mais forte e do “Chico esperto”, dando origem às maiores barbaridades e, muitas vezes, a uma exploração desumana dos mais frágeis. Se olharmos ao nosso redor, vemos que o que predomina em muitas sociedades é a corrupção, o enriquecimento ilícito, os branqueamentos de capitais e a proliferação dos paraísos fiscais.

De facto, o abuso do saber moral, provocado por teorias doutrinárias, vem sendo ornado pelos espinhos da obscuridade, da impunidade e da incoerência que lhes provocam más interpretações, habilidosamente elaboradas e apoiadas em disfarces falaciosos. Esse valioso saber moral é, pois, atacado, sem contemplações, pelos interesses pessoais, coletivos e partidários para que os seus mentores atinjam os seus objetivos.

Aliás, como esses princípios éticos não formam, de início, um todo harmónico, pode surgir facilmente uma certa tensão indevida entre alguns deles, se as pessoas não tiverem as convenientes cautelas na sua aplicação. Pensemos, por exemplo, nas políticas fiscais redistribuídas sob o prisma da justiça social.

Os impostos, que são, em regra, muito exagerados e pesadíssimos, não só invadem a liberdade individual e a propriedade particular, como incluem exorbitantes restrições económicas nos parcos rendimentos das classes mais modestas.

Estas medidas de gestão, em vez de promoverem a justiça, implicam uma forte desigualdade fiscal. É assim que surgem as indignações, muitas vezes, silenciosas e as amarguras latentes na vida daqueles que não têm rendimentos para satisfazer os seus encargos sociais e, ao mesmo tempo, garantir uma subsistência digna.



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