Espaço do Diário do Minho

Viagem, viragem e voragem pelo tempo
2 Jan 2019
João António Pinheiro Teixeira

  1. O tempo é mais para sentir do que para conhecer. Nunca saberemos cabalmente o que é o tempo. Mas sentimos intensamente o que significa atravessar o tempo.

  2. Até quando paramos, percebemos que o tempo não deixa de andar. Somos permanentemente visitados por sucessivos «antes» e «depois». Até na sua filigrana mais fina, o tempo cobre-nos com repetidas incursões pelo «fim» e pelo «princípio».

  3. As cercaduras emocionais que nos acompanham no tempo trazem-nos vivências que gostaríamos de refocilar e estender. São momentos que sabem a eternidade. É aí que nos apeteceria habitar para sempre. Mas há igualmente instantes que daríamos tudo para sacudir e apagar. São, contudo, esses (indesejados) «inquilinos» que não cessam de nos torturar.

  4. O tempo assemelha-se a uma viagem em forma de viragem. A caminho de uma irremediável voragem. Nele – mesmo quando parece que nada se altera –, tudo se torna diferente.

  5. O tempo cruza-se connosco em muitas fases e com muitas faces. A impressão que dá é que, no início, o tempo não anda. Depois, notamos que (afinal) o tempo passa. De seguida, constatamos que o tempo corre. Finalmente, damos conta de que o tempo voa.

  6. Imerso no tempo, o homem tem dificuldade em estar e em ser. Ele nota que não está onde já esteve nem onde vai estar. O momento presente não é mais que uma repentina deslocação entre o momento anterior e o momento seguinte. Dificilmente conseguimos estar; estamos sempre a ir. É por isso que o ser humano é uma transcorrência entre o que já foi e o que há-de vir a ser.

  7. Não espanta que Alexandre Herculano tenha entrevisto o homem como «um animal que disputa». Em si próprio e no ambiente circundante, ele vive em procura contínua e em insatisfação constante. Não lhe basta o que encontra. Pelo que jamais desiste de encontrar nem de se reencontrar.

  8. Nesta quadra – de noites distendidas –, era bom que cada serão também fosse nutrido de meditação. Seroar deveria ser especialmente aproveitado para meditar.

  9. Aprendamos com o tempo. Ele é sempre pontual. Nunca deixa de nos acenar, sem alguma vez procrastinar. Não tenhamos pressa. Mas também não voguemos em pausas exasperantes.

  10. Nesta acelerada viagem, celebramos mais uma viragem, rumo à inevitável voragem. Um novo ano está a chegar. E a eternidade – essa – também não irá demorar!



Mais de João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira - 12 Fev 2019

«Cristianismo» vem de Cristo. Será, porém, que o Cristianismo sabe sempre a Cristo? O Cristianismo não é uma redundância; é uma novidade. Ser cristão não é uma mera confirmação da vida; é uma proposta de transformação da existência. Deste modo, não somos cristãos para ser como nos apraz, mas para incorporar a vida que Cristo […]

João António Pinheiro Teixeira - 5 Fev 2019

A proximidade do poder em relação ao povo não é de agora. Tal proximidade já existia outrora. Talvez não fosse uma proximidade (vistosamente) afectiva. Mas é possível que até fosse bem mais efectiva. Muito antes da «presidência aberta», houve quem praticamente renunciasse a ter morada certa. Nos séculos XII e XIII, o rei D. Sancho […]

João António Pinheiro Teixeira - 29 Jan 2019

Faltar à palavra é um mal. Mas sem esse mal haveria Portugal? Se o primeiro – e, porventura, maior – político português mantivesse sempre o que disse, o mais provável é que o nosso país não existisse. Será que prometer e não cumprir é uma injunção da nossa matriz? É sabido que a D. Afonso […]


Scroll Up