Espaço do Diário do Minho

Dói-me tudo
31 Dez 2018
Paulo Fafe

Encontrei-me com Portugal e vinha com ar abatido. Então que se passa? Olha, venho do médico. Mas de que te queixas? Não sei, dói-me tudo, sinto um mal-estar geral; pareço o protesto dos coletes amarelos! Não sabiam de que se queixar porque lhes doía o estado do país por inteiro.

Estou na mesma: dói-me a saúde com a greve dos enfermeiros, dói-me a educação com o roubo de tempo feito aos professores, dói-me a justiça com os juízes a reivindicar, até já não sei se são ou não são órgãos de soberania;

dói-me os transportes com os motoristas a ameaçar parar, dói-me a perda de confiança nos deputados com a questão das falsas moradas e abonos indevidos, dói-me o roubo de Tancos, dói-me o roubo das armas da PSP – as Glocks – dói-me a morosidade da justiça, sangravam ainda as feridas das bancarrotas dos bancos, levando com a sua gestão ruinosa ou maldosa ao roubo das economias de toda uma vida;

dói-me a falta de pudor na reconstrução das casas ardidas dos grandes incêndios florestais, isto causa-me tamanha dor saber que uns tiveram as suas casas desabitadas ou segundas habitações reconstruídas, enquanto outros ainda dormem em barracas de campanha ou rulotes. Que dor de alma isto me provoca!

Dói-me ouvir dizer que nos hospitais faltam máscaras para estar nos blocos operatórios ou luvas para mudar consoante os preceitos de segurança e higiene hospitalar determinam. Dói-me observar como foi possível não interditar o trânsito na estrada de Borba ao ponto de permitir o colapso que levou à morte pessoas e bens! Dói-me ter de contar cem greves em noventa dias. É obra! Mas para lá um pouco com as tuas queixas porque ao que me dizem as finanças estão bem, ou mesmo muito bem, ao ponto de o ministro das finanças ser uma estrela do défice nacional!

Talvez Mário Centeno a quem te estás a referir, seja uma estrela, mas está a tantos anos luz de chegar aos portugueses que pouco alumia e nada aquece. Esta é a realidade. Se houvesse menos contabilidade e mais caridade, talvez estas minhas dores não fossem tão sentidas. Deixa lá, Portugal doente, porque amanhã é outro ano que começa, o Ano Novo que talvez te traga a alegria que não tens e não tiveste este ano de 2018 que agora finda.

Alegra-te porque não falta champanhe nos hotéis de luxo, barretes encarnados para os pobres, vivas nas praças públicas, contagens decrescentes e uvas passas. Entra no espírito da esperança e verás como as tuas dores, meu querido Portugal, verás como as esperanças fazem desaparecer as angústias e tristezas de um ano que agora se acaba.

Talvez seja isso só que dizes, esperança milagreira, é isso que traz o primeiro minuto de 2019; mas as minhas dores, as dores deste meu corpo que dá pelo nome de Portugal, continuam a ser as mesmas, a esperança morre aí depois da contagem para a meia-noite, e eu, infelizmente, continuarei a dizer, dói-me tudo.

Vou-me embora enquanto a folia me não apanha e faz de anestesia. Espera um pouco mais: ouviste o discurso do Presidente da República e do primeiro-ministro? Ouvi mas são analgésicos de placebo. Até amanhã. 



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