Espaço do Diário do Minho

O Futuro da Vida

15 Dez 2018
Ricardo Marinheira

Está em curso aquela que se perspectiva ser a maior, mais impactante e mais abrangente Revolução Industrial da História da Humanidade: a Quarta Revolução Industrial. As três primeiras revelaram-se de enorme importância, uma vez que a Primeira constituiu-se como a fundação da indústria com a adopção da máquina a vapor e do conceito de produção em massa; a Segunda esteve ligada ao início da utilização da energia eléctrica no processo produtivo e a Terceira ficou marcada pela informatização e pelo nascimento da Internet.

Já a Quarta Revolução Industrial levanta questões existenciais, podendo mesmo pôr em causa o papel do ser humano enquanto único detentor de inteligência e podendo ditar os destinos da Humanidade.

A Indústria 4.0 contempla alterações profundas no quotidiano, à forma como se vive e interage com o meio. Os objectos de utilização diária como os electrodomésticos, as ferramentas, os automóveis, transportes públicos ou mesmo mobiliário urbano terão ligação à internet e capacidade de comunicar entre si, e de recolher dados.

No entanto, o conceito mais disruptivo associado à Quarta Revolução Industrial é o de Inteligência Artificial (IA), que promete dotar de capacidades cognitivas tudo o que nos rodeia. Já estão disponíveis no mercado vários smartphones, cujas câmaras fotográficas são capazes de identificar os objectos fotografados.

Por outro lado, é possível vermos circular veículos de condução autónoma, cujo funcionamento se baseia em algoritmos capazes de aprender, adaptar-se às circunstâncias e tomar decisões em tempo real, tal e qual faz um condutor humano. Estes algoritmos são ferramentas poderosíssimas e, por isso mesmo, uma ameaça de contornos ainda por descobrir. A faculdade de recolher e analisar dados, e de tomar decisões neles baseadas deixará de ser exclusiva dos seres humanos.

Se é inegável que se abrem novas perspectivas no sentido de transferir variadíssimas tarefas para as máquinas, deixando para os seres humanos trabalhos maioritariamente de gestão e de direcção, as consequências da utilização mal intencionada deste tipo de tecnologia revelam-se preocupantes. Não será também de descurar o cenário já antecipado no filme “2001 Odisseia no Espaço”, em que as máquinas, capazes de aprender a uma velocidade aterradora, suplantam com facilidade os seres humanos, substituindo-os no processo de decisão.

Conscientes da necessidade inadiável de estabelecer fundações sólidas para o desenvolvimento do futuro, no qual se inclui obviamente a Inteligência Artificial, o cosmologista do MIT Max Tegmark e o co-fundador do Skype Jaan Talliinn, entre outros, criaram o Future of Life Institute, uma instituição que congrega cientistas das mais diversas áreas, cuja missão é catalisar e apoiar a investigação e as iniciativas de salvaguarda da vida e de desenvolvimento de visões optimistas do futuro, incluindo formas positivas da Humanidade traçar o seu futuro, tendo em consideração as novas tecnologias e os desafios que estas criam. O Conselho Consultivo Científico deste Instituto inclui personalidades como Elon Musk, Nick Bostrom, ou ainda Stephen Hawking, entretanto falecido.

Este instituto definiu um conjunto de vectores fundamentais a implementar no desenvolvimento da Inteligência Artificial, de entre os quais, dois assumem particular importância: a Ética e a Governança.

Estes pontos contemplam questões às quais as comunidades e nações terão de responder, como sejam as relativas à distribuição de rendimentos e à protecção dos trabalhadores, as regras de acesso às ferramentas poderosas baseadas em IA, a possibilidade de utilização da tecnologia para manipular e aumentar a inteligência humana, ou ainda a possibilidade de proceder a manipulação genética.

No que diz respeito às questões éticas, é fundamental envolver desde muito cedo a população estudantil, mais concretamente do domínio da informática, por forma a que, paralelamente às competências técnicas, esta desenvolva capacidades de pensamento ético.



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