Espaço do Diário do Minho

O automóvel e a cidade – Circular em Braga

5 Dez 2018
Dinis Salgado

Todas as manhãs e fins de tarde as estradas que conduzem às grandes cidades são um autêntico pantanal de trânsito; e, obviamente, com todo o cortejo de complicações que acabam em constantes acidentes, quase sempre com feridos e mortos à mistura 

Todos sabemos que, hoje, chegar às maiores cidades, quando temos urgência, é simples, rápido e cómodo; e pela mera razão de que as vias que a elas nos conduzem se chamam autoestradas, itinerários principais (IPs) ou complementares (ICs) e vias rápidas que permitem fluidez, segurança e rapidez rodoviária. 

Agora, entrar e sair nessas cidades é uma enorme dor de cabeça, sobretudo pelo pára-arranca, engarrafamentos colossais e paragens enervantes e longas; é, por isso que, há muito tempo, se diz que os lisboetas, enquanto se deslocam diariamente para os empregos leem o jornal, tal é o tempo que perdem engarrafados e presos ao trânsito. 

Pois bem, a nossa cidade igualmente vai sofrendo, embora em menor escala, desta maleita dos grandes aglomerados populacionais; e, mormente, nas horas de ponta, quer na entrada, quer na saída de que são exemplos bem explícitos os nós de Infias, do Centro Comercial E. Leclerc, em Maximinos, e das Parretas, bem como a Avenida Cidade do Porto, vulgarmente designada por reta da Grundig e o polo universitário, em Gualtar. 

Ninguém ignora que o automóvel é o meio de transporte atual mais usado pelos portugueses que têm de se deslocar para o trabalho, seja para a cidade, seja para outros locais; e o facto só por si acarreta um sem número de problemas para todos nós dos quais o não menos constrangedor é a circulação rápida e segura. 

Se nos dermos ao trabalho de observar o número de passageiros por viatura que entra na nossa cidade todos os dias, o resultado é francamente desanimador, a saber: a maior parte dos automóveis, avançamos oitenta por cento (80% ), apenas transporta o condutor; e isto se deve ao facto de não possuirmos o bom hábito de partilhar o transporte de e para o emprego e significa comodismo e falta de cultura coletivista. 

Daqui resultam efeitos penalizadores e desmotivadores: vias rodoviárias congestionadas, imensas perdas de tempo para entrar e circular na cidade, idas e regressos de e para o emprego demolidores da paciência humana com intermináveis filas de trânsito e, inevitavelmente, uma despesa muito maior no final do mês; por isso, fácil é de adivinhar as perdas que advêm desta problemática em termos profissionais, laborais e socioeconómicos. 

Ora, a solução possível para minimizar estes danos passa, sem dúvida, pelo uso do transporte público que, em Braga, é pertença dos TUB; e que, apesar de alguns constrangimentos que lhe são afetos, até vão dando resposta satisfatória aos principais objetivos que os definem e aos seus utentes. 

Vejamos, pois, alguns desses obstáculos à sua cabal e pública utilização: falta de dimensionamento para responder às necessidades individuais e coletivas, como sejam as que se prendem com a pontualidade, o tempo de viagem e de espera, o desejado conforto na sua utilização, como o necessário ar condicionado e o necessário rigor no número de passageiros a transportar. 

E não menos problemática é a falta de ruas, cuja dimensão espacial não permite a criação de corredores exclusivamente para o transporte público, a deficiente fluidez de trânsito devido ao congestionamento das mesmas e a inexistência de parques de estacionamento nas entradas mais problemáticas da cidade, onde fosse possível trocar o transporte privado pelo transporte público para prosseguir viagem para o centro. 

Pois bem, custe o que custar, temos de pensar que a convivência pacífica do automóvel com a cidade é difícil e tem os seus dias contados; até já há cidades em muitos países que, pura e simplesmente, proíbem a entrada de carros nos centros urbanos, pelos problemas que acarretam, dos quais o ambiental é o mais preocupante e concludente; só que esta é uma luta contra hábitos enraizados nas pessoas de que resulta uma mentalidade cultural de individualismo e egoísmo, difíceis de contornar e combater; mas a que não podemos virar as costas se queremos, no futuro, uma cidade para as pessoas, pelas pessoas e com as pessoas; sobretudo, uma cidade onde se pode dizer que se é feliz.

Ou mais simplesmente exclamar que É BOM VIVER EM BRAGA. Então, até de hoje a oito.



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