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Artista japonesa revela que irá adequar o repertório e seleção de instrumentos ao ambiente.

Redação
13 Novembro 2018

A percussionista Midori Takada, autora do álbum “Through the looking glass”, considerado uma obra-prima desde 1983 e reeditado em 2017, estreia-se esta semana em Portugal com concerto em Braga.

Em conversa antes do espetáculo de hoje na Capela Imaculada do Seminário Menor, em Braga, a artista japonesa revela que irá adequar o repertório e seleção de instrumentos ao ambiente específico de cada palco, por defender que todas as salas têm uma influência própria no desempenho musical.

«A minha performance irá mudar consoante o local, porque o espaço é o corpo onde a ressonância se cria», explica Midori Takada.

«Como, para mim, ‘instrumentos’ significa ‘materiais’, eles não são apenas os que estão disponíveis numa loja de música, mas também os que se encontram no solo – como água, metais, madeira – e até agora usei [na digressão] uma cadeira, a secretária de um militar que ocupou o Japão, parte de uma ponte, material da estação de Tóquio, etc.», declara .

Apontada por músicos, crítica e imprensa como uma artista “minimalista”, “espiritual” e “meditativa”, Midori Takada iniciou a sua carreira no registo clássico e logo depois dedicou-se a uma profunda pesquisa das linguagens percussivas da Ásia e de África, criando um corpo de trabalho que beneficiou ainda da sua experiência no jazz e na composição de bandas-sonoras para teatro, cinema, ‘animé’ e videojogos.

Para a percussionista, todas essas áreas «são apenas ramificações» do instinto criativo musical, uma vez que, «desde a era do teatro grego», os adereços são unicamente «reinos de visão criados a partir do pensamento humano e, como resultado, a criatividade não é diferente».

Nesse sentido, Midori Takada diz-se a mesma artista que, em 1983, lançou “Through the looking glass”, gravado em fita analógica em apenas dois dias, devido a restrições de orçamento. Recorrendo a marimbas, gongos, sinos de carrilhão, um harmónio e até garrafas de Coca-Cola sopradas como flautas, a artista executou esses instrumentos a diferentes distâncias do microfone para criar o efeito de uma escultura sonora tridimensional e foi corrigindo os erros detetados sobrepondo sucessivas camadas de fita à gravação inicial, o que conferiu ao álbum uma sonoridade peculiar.

«Não mudei desde essa altura, o que talvez possa ser pelo meu sentido de uma era diferente, já que nasci numa célula de antiguidade remota», diz a percussionista.

«Sempre criei música pelo meu sentido de mim própria – sentia inquietação, tensão, esperança, desejo de relaxamento – e penso que as pessoas vão encontrar a mesma situação atualmente», defende.

Midori Takada afirma, aliás, que também nos espetáculos ao vivo a sua motivação se mantém inalterada: “Só toco para dar o meu som à audiência. Se as pessoas o receberem, a minha música tem conclusão”.

Quanto à forma como nos últimos 50 anos a percussão evoluiu no sentido de um maior recurso a timbres eletrónicos, a intérprete e compositora admite que isso possa ter resultado de “uma ânsia pelo novo, o que parece refletir a atitude de desejo natural do instinto humano”. Essa preferência pode ainda representar um mecanismo de fuga: “Usando a eletrónica, a música teve novo espaço para se esconder do mundo material e isso significa que, hoje, as pessoas precisam de espaço imaterial”.

Para Midori Takada, o digital e o automatismo simbolizam, no entanto, “o declínio do corpo humano” e, nesse contexto, prefere uma exploração diferente do poder criativo individual: “A música é um dos nossos instintos para tornar o espaço seguro. Daí eu dizer ‘usem o vosso corpo’ e, assim, irão sobreviver”.

Em todo o caso, argumenta que “as palavras não são substância” e, por isso mesmo, desvaloriza os adjetivos elogiosos utilizados pela crítica na descrição do seu trabalho.

Defendendo que “a música é só vibração liberta no ar”, aprecia no público a autonomia com que escolhe as sensações a retirar de cada espetáculo e, aos jovens músicos que pretendam fazer carreira na percussão, deixa apenas um conselho: “Sejam livres”.


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