Espaço do Diário do Minho

Dá cá um beijo e põe-te a milhas

6 Nov 2018
Paulo Sousa

Há anos a esta parte que tenho assistido a uma progressiva “desportuguesação” do espaço público de comunicação coletiva, seja ela proveniente de fonte institucional, associativa, desportiva, recreativa ou outra. É como se de repente fossemos inoculados com o vírus da vergonha e da falta de carácter.

Algo inexplicável. Primeiro foram os espetáculos, depois foram as conferências, a seguir vieram eventos de toda a espécie, que tanto podiam provir da administração central como da local, autores com responsabilidade pública, influenciadores de diversificada proveniência. Todos leais à ideia de vender melhor o produto e/ou o serviço; de tal modo que já ninguém quer saber da origem nem da propriedade das palavras.

Não há dia nenhum, que não encontre exemplos de má combinação entre as duas línguas. Chega a ser tão confrangedor, que um dia destes liguei a uma organização a protestar, pela simples razão de que a única coisa que vinha em português era o local, a hora e o dia. A informação essencial estava toda escrita em inglês e somente quem domina a língua vai perceber.

Esta é, também, uma forma de exclusão do cidadão do processo de comunicação que deveria ser preservado e defendido de forma intransigente. Quem acha que “esta ambivalência” não tem consequências e que não se deve traumatizar, desengane-se: é tão rápida a sua influência que muitos de nós utiliza já dezenas de palavras em Inglês sem se interrogar porque não lhe utiliza a alternativa em português quando ela existe.

Não se admire leitor(a) com indisfarçada capacidade de nos metermos em alhadas com a língua. Faz parte do modo de estar e ser de uma geração, a minha, que abdicou de um dos pilares essenciais à existência de um povo, para se dedicar a vender a língua que deveria impor-se, como fazem e bem cada um dos povos que habita a vizinha Espanha. Lá, a defesa do castelhano, por exemplo, é tão vigorosa, que nem as lojas proprietárias da comunidade chinesa a podem ignorar, sendo obrigatória a publicitação em espaço público na língua de Cervantes.

Falando em português do povo: por que raio abdicamos de comunicar de forma integra? – Todas as pessoas que abordo sobre esta matéria, entre professores da língua portuguesa, publicitários, profissionais do marketing, justificam-na como se tratasse de um ajustamento às novas necessidades da gestão visual, da comunicação in nete da internacionalização da moda linguística para a qual a língua inglesa continua a ser um cartão de visita, sem esquecer a “má” influência das redes sociais e a propensão dos portugueses para abordar e aceitar outras línguas com naturalidade.

O que é uma vantagem nacional está-se a transformar aos poucos numa imbecilidade coletiva, com diagnóstico reservado face ao futuro do português enquanto alternativa; tudo porque achamos que o português não é competitivo. É a maior burrice de que já ouvi falar! 300 milhões de pessoas falam a nossa língua e só não temos mais a falar porque somos muito “bons” a perder tempo em complicar o seu uso e muito maus a facilitar a sua utilização.

. Ao contrário do português, os ingleses fizeram os trabalhos de casa e simplificaram-na. O acordo disortográfico foi uma oportunidade perdida para simplificar as metodologias e estruturas da linguagem funcional.

Esta tendência para a desvalorização do património linguístico deve merecer não só o repúdio como uma intervenção estratégica das autoridades para que se reponha em cada esquina, em cada anuncio, em cada manifestação o uso do português, Poderão dizer que a nossa língua é tão grande que não consegue dar a “Volta ao Mundo em 80 dias”, mas ironias das ironias, é a mesma língua que aceita conviver com outras que está a ser atacada por aqueles que a deviam defender.

A emergência desta defesa chega a ser caricata pelo insólito, mas deve merecer, por agora, uma avaliação aos pedrões regulamentares da utilização da língua e se for caso disso, estabelecer regras que definam bem a utilização das duas línguas em simultâneo. Não me repudia ler um anuncio em duas línguas ou que as informações fixas, sejam elas de trânsito ou meramente indicativa estejam nas duas línguas, mas é inadmissível e contra isso estarei na primeira linha que seja a língua inglesa a ter a primazia na comunicação com os cidadãos de Braga.

É tão verdade, verdadinha, que lanço daqui o apelo aos autores da ideia que digam aos seus filhos que a mensagem “dá cá um beijo e põe-te milhas” é tão bem entendida e melhor comunicada de que um kiss and go”.



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