Fotografia: Alexandre Gonzaga

Cidade homenageou o pediatra que salvou o Hospital de São Marcos

Tributo a Fernando de Sá Menezes no Palácio do Raio

Alexandre Gonzaga
27 Out 2018

O Palácio do Raio acolheu ontem a cerimónia de homenagem ao primeiro presidente do Hospital de São Marcos. A cerimónia destacou o percurso do pediatra Fernando de Sá Menezes à frente da unidade hospitalar bracarense, durante um período conturbado da história nacional, e a intervenção em prol das crianças do município minhoto.
«Eu não pedi nada disto. Alguém lembrou-se de fazer uma homenagem no dia em que comemoro 87 anos de idade. Por algum motivo, fiz qualquer coisa de útil», disse ao Diário do Minho o homenageado, referindo-se à iniciativa encabeçada por Gracinda Oliveira.
O médico – o “Dr. Sá Menezes” – recordou o seu papel no Hospital de São Marcos e lembrou-se das pessoas que acolheu no seu consultório.
«Procurei ser útil para o Hospital de São Marcos e para os seus doentes, em particular, para duas classes de pacientes: as crianças e os idosos. Foi a luta que tive e fui o único diretor eleito, ou seja, não fui escolhido politicamente. Se fosse indicado politicamente, não aceitaria. Foi o povo que votou em mim, pois, sempre dialoguei com o povo…. apesar de não sermos da mesma linha», explicou o pediatra, que exerceu diversas funções na unidade de saúde entre 1965 e 1999.

Farto de aturar políticos
Frontal e assertivo, jamais deixou de verbalizar as suas opiniões. «Fiz o que pude, criei o que pude e tive uma luta terrível com os políticos. Em 1981 acabei por recusar a direção do hospital. Foi eleita outra pessoa e, a partir daí, começaram as nomeações políticas. Já estava farto de aturar políticos e não estou de acordo com o políticamente correto», desabafou.

Consideração pelo povo
«Para mim, tem de se dizer ao povo “porquê” ou “porque não”. Temos de utilizar a linguagem que ele entende, que não é, muitas vezes, a nossa linguagem. Por vezes, é preciso usar palavras que não são muito corretas, mas, são as palavras que o povo entende. É preciso educar o povo: tirar mitos e crenças, e convencê-lo que esse é o melhor caminho», sustentou Fernando de Sá Menezes, que disse estar convicto que, naquela época, conseguiu fazer do Hospital de São Marcos «uma família».

Empatia e justiça
Admitiu que era «duro» e que «correu muita gente, porque não tratava bem os idosos e, especialmente, os meninos».
«Eu pintava a manta. Um dia precisei de sangue para realizar uma transfusão numa criança. Pedi à respectiva família, que era numerosa, se podia doar sangue. Responderam-me: “a Caixa paga”. Estávamos em pleno regime salazarista e eu disse para a minha enfermeira: “vai ao talho e traz sangue de porco porque para estes animais serve!” Virei-me para aquela gente e disse: “Ou me dão sangue ou a criança morre: escolham!” E lá acabaram por disponibilizar o sangue… Custou a meter na cabeça que não existia fábrica de sangue», contou o pediatra, que garantiu «não ligar nada à televisão ou aos jornais».

«Dr. Sá Menezes salvou o Hospital»
Para o provedor da Santa Casa de Misercórdia de Braga, «em boa altura foi tomada esta iniciativa de homenagear o Dr. Sá Menezes».
O ex-diretor «foi uma referência antes do 25 de abril, pois foi devido ao seu trabalho e empenho que se manteve o Hospital de São Marcos», garantiu Bernardo Reis. A unidade hospitalar foi gerida pela Misericórdia bracarense entre 1528 e 1974, altura em que foi intervencionada pelo estado português e, a partir do 25 de abril, foi gerida pelo Ministério da Saúde e da Assistência, assim designado naquele tempo.

«Antes quebrar que torcer»
«O Dr. Sá Menezes é um homem que, pelo seu humanismo e características, é merecedor desta homenagem. É frontal e apoiou sempre as pessoas mais necessitadas, sem pensar nos aspectos materiais. É um homenagem justa pelo que fez para que este hospital não desaparecesse», sublinhou Bernardo Reis. «Se o Dr. Sá Menezes não tivesse sido diretor naquele tempo, com o dinamismo dele e a sua força de vontade – é um indíviduo “antes quebrar do que torcer” – penso que teria havido problemas graves neste hospital. Devemos-lhe muita coisa», concluiu.





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