Espaço do Diário do Minho

Dias pequenos

13 Out 2018
Mário Carvalho

Pelas ruas da cidade, outubro adentro, os dias encolhem.

Os passos de outono percorrem as fachadas, agora mais baças e de janelas que se vão fechando. Já não são quentes e pesados, sem destino nenhum ou à procura do alívio da sombra, levam na cadência um destino com tempo marcado.

Cruzam pessoas de malha pelas costas, a quem os calções e as saias cresceram com o diminuir dos dias. O pregão do gelado vai sabendo a castanhas, entoadas como quentes e boas. Quentes porque já vai apetecendo, boas porque, nos dias pequenos, sabem melhor.

Nos dias que vão ficando pequenos são outros os sons da cidade. O livre minhoto, adornado pela doce textura da bossa nova e o ritmo cortante do flamenco, aqui e ali salgados por outros sons distantes, é agora um plácido rumorejar que ondula nas folhas que caiem atapetando o lajedo.

A música já não é a do conjunto que toca no coreto. É a do violino perdido na travessa que já não grita, vibrante, La Traviata, mas sussurra, numa serena mansidão, o amarelo avermelhado do Outonode Vivaldi.

Os sinos, os da Sé e os outros, ouvem-se agora sem abafo, mais límpidos e acutilantes, lembrando as horas… também elas mais pequenas.

O sol ainda brilha. Esbatido pela névoa dos dias pequenos já não queima, aconchega num abraço morno.

Nas esplanadas os guarda-sóis sombreiam cadeiras que se amontoam vazias, o seu esvoaçar já não anuncia uma brisa que refresca, mas um ar agreste que arrepia. E, depois dos sinos avisarem as 3 da tarde, ouve-se “lá dentro está-se melhor”.

É, nestes dias em que o sol vai ficando pequeno e o tempo é de lavar os cestos, que a cidade morna nos pede e oferece companhia e que, colhendo-a, nos deleitemos com a safra.

Pelas ruas de Braga podem ser grandes os dias que vão ficando pequenos.



Mais de Mário Carvalho


Scroll Up