Espaço do Diário do Minho

Santiago e os usurpadores
12 Out 2018
Artur Soares

Nas décadas de sessenta/setenta do século passado, existiam milhares de trabalhadores funcionários públicos, como hoje, e que o polémico presidente do Conselho de Ministros de então, defendia. Umas vezes bem, outras não, mas os funcionários eram respeitados.

A par destes trabalhadores, eram os bancários. Ironicamente, uns e outros, não conheciam os patrões ou, se se quiser, a identidade patronal. Interessante também saber, é que o recrutamento do pessoal de ambos os sectores, obedecia a certos critérios, como o de terem virtudes humanas.

Os funcionários do Estado tinham de ser apolíticos, bem-comportados na vida social e, os bancários, serem delicados, atenciosos, averiguadores discretos e, de certo modo, filhos de pais economicamente abastados.

Nos tempos actuais, o Estado ostraciza os funcionários, considera-os lixo e saca-os nos vencimentos ou nas pensões de reforma. Os bancários, gente que pugnava pela saúde bancária, que foram estimados e admirados, hoje, como o pessoal do Estado, são escravos da hierarquia.

E se há cinquenta anos os presidentes ou directores bancários passavam despercebidos ou poucos sabiam quem mandava, na função pública era semelhante: conhecia-se o nome do ministro ou do director-geral, mas, no dia-a-dia desses serviços, notava-se a competência profissional.

Hoje passa-se o contrário: não se sabe bem quem atende durante o dia nos balcões, não se sabe bem quem manda e, a competência ou o interesse pela manutenção do prestígio nos serviços que se prestam – foi-se. E quem não estiver bem que vá a outro lado.

Pela opinião exposta ou pelas verdades apontadas, tudo tem explicação, tudo é história que qualquer um conhece. O enfraquecimento profissional de uns e outros aqui mencionados, é que os políticos e as chefias bancárias, só governam desde que se governem, isto é, desde que ilicitamente enriqueçam e o mais rápido possível. Na primeira república nasciam usurpadores como nasciam ratos nos esgotos.

Na segunda república corrigiu-se a rapacidade e lentamente foram prestigiando quem no dia-a-dia transpirava em prol do brio profissional. Nesta terceira república, os políticos são a vergonha do povo e as chefias bancárias têm sido os carrascos de Portugal.

Desse modo, recorde-se a Banca em Portugal, em poucas linhas. Desde 1820, a Banca portuguesa tem sido um mar de fusões, de confusões e de nacionalizações. Tudo se funde em benefício dos usurpadores, dos que ao abrigo da noite enriquecem. A

maior vergonha da Banca portuguesa, surgiu no pós 25 de Abril de 1974. Nacionalizou-se tudo, sacou-se tudo, entregou-se dinheiro a carraças de políticos influentes e, passados mais de quatro centenas de anos de democracia, que é a Banca portuguesa e como serve?

Serve os mais ricos, os amigos que dominam a economia nacional, serve os interesses bancários da União Europeia, injectam milhares de milhões na Banca para a sobrevivência da Banca e exploram os empregados: sacando-lhes os vencimentos, as reformas, não permitindo a actualização de ordenados e falam em aumentos de cinco euros a cada um, ao fim de nove anos de estagnação salarial.

Sente-se o crescimento dos ricos em Portugal. Os pobres continuam ossificados na travessia do deserto e a classe média está arruinada.

Os políticos nada fazem por um Portugal sério, limpo e justo, porque eles mesmos não são sérios, nem limpos, nem justos. Comanda-os o dinheiro: na engorda da vida pessoal e partidária, quaisquer que (eles) sejam.

E mesmo a nível de política económica europeia, os ricos buscam sempre mais riqueza, mesmo que selvagem, desumana ou mesmo que untada em sangue.

Não é por acaso que, pretendem menos bancos em cada país, para se obter uma “Banca mais organizada, mais capaz”. Mais capaz, digo eu, de sacar o povo e de beneficiar a manada dos que não vêem crianças que morrem à fome e à sede, num Mundo que regista vinte milhões de humanos que morrem precocemente!

É velha, velhíssima a pobreza de tanta gente no mundo. Todavia, as palavras de Santiago, numa sua carta, em Cartas Católicas, apontou aos donos do dinheiro do seu tempo, as palavras que ainda no século XXI têm actualização: “chorais agora em altos gritos, vós os ricos, pelas desgraças que virão sobre vós. Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar”!

Corrupção, usurpação e os clamores do povo, são a facilidade do começo de “guerra”, com todas as dificuldades do términus da “guerra”.

(O autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico).



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