Espaço do Diário do Minho

Os dias da Confiança

30 Set 2018
Eduardo Jorge Madureira Lopes

O que torna muito interessante o livro Indústrias de Braga. Notas dum jornalista (Braga: Tipografia da Pax), de Manuel Araújo, aqui referido no domingo passado, é, em primeiro lugar, claro, o vasto repositório de memórias da cidade e da região nas décadas iniciais do século passado.

Mas, além de falar sobretudo das indústrias aqui existentes e de ofícios hoje, em vários casos, desaparecidos, o conjunto de breves reportagens que compõem a obra dá boa conta dos constrangimentos e dos desafios económicos do país.

O livro pretendia “contribuir para o movimento de resgate da actividade industrial bracarense, fazendo apressar a hora da justiça, chamando sobre ela distraídas atenções dos estranhos”. Idêntico propósito têm hoje os que gostariam que a memória da Saboaria e Perfumaria Confiança fosse devidamente cuidada e amplamente divulgada. Lendo Indústrias de Braga, percebe-se bem que a Confiança não é apenas uma entre dezenas de indústrias reportadas.

Quando Manuel Araújo se desloca à fábrica em 1928, trinta anos depois da sua fundação, é recebido por José Peixoto d’Almeida, apresentado como “um amigo dos mais queridos”, “de quem a Confiança tem muito a esperar”, que se encarrega de o colocar “frente a frente” com Rosalvo da Silva Almeida e Manuel dos Santos Pereira, fundadores e directores.

A conversa revela o objectivo da empresa: “Hoje todo o nosso interesse é aperfeiçoar o produto fabricado de forma a que nada fique a dever aos estrangeiros”, afirma Henrique dos Santos Pereira. A aposta na qualidade justifica-se também pela circunstância de a capacidade de produção ser mais do que suficiente. De sabão, fazem-se mensalmente oito mil caixas; de sabonetes, faz-se talvez metade do que o país consome, refere Rosalvo da Silva Almeida.

A conversa prossegue com uma visita à fábrica, que inclui uma passagem pela “sala do mostruário”: “Duas lindas vitrines com o mais lindo recheio. As qualidades, as marcas de sabonetes, de perfumes, de cremes, de pó de arroz, de pastas dentífricas multiplicam-se. Dispostas com gosto, impressionam o visitante”. Impressioná-lo-ão hoje, de novo, se a “sala do mostruário” se multiplicar por outras mais que alberguem os fascinantes produtos que a Confiança continuou a apresentar.

O número de marcas produzidas na altura era já impressionante: 150. Entre elas, pontificavam os sabonetes Floral, Miosotis, Colonia, Rosa Créme e Excelsior. A última marca abrangia toda a série de produção: “perfumes, pó de arroz, creme, stique para a barba, etc.”.

O momento talvez central da conversa poderá muito bem ser o que testemunha um aspecto fundamental em que a Confiança se distingue. “A nossa casa é das poucas que dispensa ao operário um carinho especial, procurando rodeá-lo da melhor e da mais eficaz assistência moral e material”, conta Rosalvo da Silva Almeida. Especifica ele que, “a título de prémio”, lhe são oferecidas várias regalias e também dispõe de médico “tanto para ele como para a família”.

“Além disto, pagamos, em caso de doença e por tempo indeterminado, o ordenado por inteiro”, acrescenta Rosalvo da Silva Almeida, sublinhando a excepcionalidade deste procedimento: “Por aqui não há outra fábrica que faça o mesmo”.

As virtudes da Confiança – e não apenas as relativas ao pioneirismo quanto aos cuidados com a saúde dos trabalhadores e as suas famílias ou quanto ao respectivo enriquecimento cultural – ouvia-as tantas vezes, desde criança, testemunhadas por um dos mais próximos amigos dos meus pais, o Senhor Amaro Dias Ferreira, um dos que ajudou a construir o prestígio da Confiança.

Sempre o escutei a enaltecer os múltiplos méritos desta empresa que honra Braga e o país. Quando, com Luís Cristóvam, fiz na fábrica da Rua Nova de Santa Cruz uma demorada recolha de rótulos de sabonetes e de outros produtos para o livro Os dias da Confiança, que a Fundação Bracara Augusta publicou em Dezembro de 2004, foi o Senhor José Peixoto, a quem ficamos a dever uma ajuda preciosa, a referir as mesmas e outras qualidades singulares desta empresa, cujo legado – ou o que dele resta – deve ser integralmente preservado.



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