Espaço do Diário do Minho

Com toda a Confiança

23 Set 2018
Eduardo Jorge Madureira lopes

Abundantes produtos fabricados em Portugal, por vezes, com uma história secular, conseguiram conquistar um novo encanto graças aos artigos que Miguel Esteves Cardoso escreveu nos anos 80 do século passado na revista do Expresso (reunindo-os depois no livro A causa das coisas, publicado em 1986 pela Assírio & Alvim) e, a seguir, às lojas, quiosques e produtos A Vida Portuguesa, de Catarina Portas.

Conhecidas marcas desusadas, tidas por obsoletas pelos que anseiam a chegada da mais recente novidade vinda do estrangeiro, tornaram-se outra vez atractivas, razão por que reapareceram, podendo hoje, com facilidade, ser encontradas em pequenas lojas comerciais – algumas, às vezes, sumamente pretensiosas, para satisfação de uma clientela incapaz de ir à mercearia do bairro comprar o mesmo produto mais barato – ou em hipermercados.

O efeito desta tendência provocou uma revalorização da história das marcas mais antigas, às quais os media começaram a dedicar periodicamente longas reportagens. Para satisfazer esse renovado interesse por coisas tradicionais, diversas velhas fábricas criaram espaços museológicos assaz qualificados. Os bons exemplos não escasseiam.

Um dos mais interessantes é o renovado Museu da Vista Alegre, reconhecido em 2017 pela Associação Portuguesa de Museologia como um dos melhores museus do ano. Além de promover a salvaguarda, investigação e interpretação do património industrial da fábrica de porcelana, a empresa alberga novos espaços para exposições de ilustração e proporciona demonstrações de ofícios ou experiências de pintura de peças em porcelana ou a modelação de pasta de porcelana.

Se umas vezes são as empresas que tomam a iniciativa de cuidar da memória industrial, outras são as autarquias que assumem esse encargo. Em Vila Nova de Famalicão, foi a Câmara Municipal a criar um museu da indústria têxtil com o objectivo de, segundo o texto de apresentação, “investigar, conservar, documentar, interpretar, valorizar e divulgar todos os aspectos relacionados com o processo de industrialização da região”, promovendo a “salvaguarda dessa memória histórica e de forma a contribuir para um maior enriquecimento cultural da sua população”.

Noutros concelhos, velhas fábricas foram revitalizadas, apresentando frequentemente novas valências, incluindo serviços educativos, que tornam ainda mais apelativos esses espaços que preservam o passado.

A reconversão que a Câmara Municipal de S. João da Madeira fez das antigas instalações da histórica metalúrgica Oliva para aí instalar a Oliva Creative Factory ou a reabilitação da antiga fábrica de curtumes Âncora que a Câmara Municipal de Guimarães empreendeu para dar lugar a um Centro Ciência Viva testemunham modos variados de evitar que a história industrial e pré-industrial se esvaia.

Poucos serão os que agora sabem que indústrias existiram em Braga há cem anos e a interessantíssima memória dos que nelas trabalharam a raros interessa. Muito se surpreenderá por isso quem ler ou simplesmente espreitar o índice do livro Indústrias de Braga (editado pela Tipografia da Pax em 1923), da autoria do jornalista Manuel Araújo. Algumas páginas são dedicadas à Saboaria e Perfumaria Confiança (alguns dos seus produtos são apreciados em A causa das coisas, de Miguel Esteves Cardoso).

Os rótulos da Confiança, alguns reproduzidos no livro Os dias da Confiança (que a Fundação Bracara Augusta editou no âmbito da colecção Braga Cidade Bimilenar) justificariam quase por si só um amplo espaço expositivo permanente.

Um programa museológico criterioso, que evitaria que se colocassem objectos em prateleiras à medida que fossem cabendo e que se exibissem imagens sem préstimo e sem regra, podia resgatar esse património, que, sendo industrial, é susceptível de ser colocado sob a alçada, por exemplo, do design e da comunicação.

Acentuando este aspecto, poder-se-ia aproveitar para lhe associar a divulgação de outros espólios, designadamente duas importantes colecções de bracarenses, uma de máquinas fotográficas, outra de rádios (com menos aparelhos fez Ponferrada, em Espanha, um museu de rádio muito atraente e instrutivo).

Um museu que rentabilizasse devidamente a história e o espólio da Confiança teria agradáveis surpresas para proporcionar aos visitantes, desde logo quanto ao fascinante design dos sabonetes.

A qualidade das cidades também se mede pelo interesse que manifestam pela memória e pelo modo como dela cuidam e a tornam útil. Aproveitar a Confiança para iniciar um projecto ambicioso de salvaguarda e de divulgação da memória da indústria bracarense, assim homenageando também as mulheres e os homens que outrora, em múltiplas empresas, emprestaram os seus braços e o seu saber para fazer progredir a cidade, a região e o país, é um empreendimento que não merece ser desdenhado.



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