Espaço do Diário do Minho

O desafio do quotidiano
11 Set 2018
João António Pinheiro Teixeira

  1. A missão está cada vez mais concentrada em alguns lugares e em alguns dias.

É uma opção que permite canalizar recursos e optimizar sinergias. Mas, por si só, não é suficiente para chegar a todos os lugares nem para atingir todas as pessoas.

2. Impõe-se, por conseguinte, que, mantendo este género de realizações, nos esforcemos por dar um passo em frente.

A vivência da fé não é para alguns dias, mas para todos os dias.

3. É por isso que, como observou Marie-Dominique Chenu, o campo de trabalho para o cristão é «o acontecimento», cada acontecimento.

O tempo do homem é permanentemente visitado pelo «tempo de Deus». 

4. Cada «krónos» humano é uma oportunidade para atrair o «kairós» divino.

Daí que, como bem percebeu Elmar Salmann, o principal desafio que temos de enfrentar seja o quotidiano.

5. É que, embora involuntariamente, podemos dar a entender que a Igreja é uma entidade ligada a «eventos extraordinários».

Ainda que não seja assim que a Igreja se apresenta, é assim que – por muitos – ela tende a ser vista.

6. Com efeito, já são muitos os que limitam os seus contactos com a Igreja a alguns momentos da vida (Baptismos, Festas da Catequese, Casamentos e Funerais) e a algumas épocas do ano (Romarias, Natal e, quando muito, Semana Santa).

Ultimamente, também se verifica que certos eventos sociais (conclusão de cursos, encontros de associações ou até reuniões familiares) não dispensam a celebração da Eucaristia. 

7. Há, portanto, alturas em que a Igreja continua presente na vida das pessoas e em que as pessoas continuam presentes na vida da Igreja.

O que falta é que essas presenças episódicas se convertam numa presença constante.

8. Não espanta, pois, que haja quem, como Elmar Salmann, pergunte. Porque é que a Igreja «não funciona no quotidiano?»

Dir-se-á que não há muita procura. Mas haverá a devida oferta? 

9. Se os ministros ordenados diminuem, a vida cristã não cresce. 

Por sua vez, se a vida cristã não cresce, os ministros ordenados continuarão a diminuir. Como sair daqui?

10. Como alerta Elmar Salmann, é imperioso libertar os poucos padres das muitas tarefas que pendem sobre eles. É preciso ajudá-los a dedicar-se ao seu papel de «mistagogos e de maieutas».

Deste modo, muitos tomarão consciência das sementes de fé que trazem em si. Tais sementes poderão perfumar cada dia com mais espiritualidade e intervenção social!



Mais de João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira - 19 Mar 2019

Quem não recorda épocas em que populações inteiras se congregavam nas igrejas? Os olhos das pessoas estavam fixos no pregador, não no relógio. Ouvir um padre sermonar não era um fardo para suportar; era um deleite para saborear. Houve quem – como São Vicente Ferrer – se alongasse em homilias de seis horas. E, não […]

João António Pinheiro Teixeira - 12 Mar 2019

Se toda a comunicação socializa, a denominada «comunicação social» alarga exponencialmente os horizontes da socialização. A «comunicação social» como que globaliza a socialização. Ela está sempre a trazer-nos novas pessoas e a fornecer-nos sucessivas ocorrências. Mas não se fica por aqui. A «comunicação social» permite-nos interagir com as pessoas que conhecemos e intervir sobre as […]

João António Pinheiro Teixeira - 5 Mar 2019

O homem não tem asas no corpo porque Deus preferiu colocar-lhe asas no espírito. Era assim que, com algum sabor dualista, São Macário Egípcio tipificava a singularidade humana no concerto da criação. O certo é que as asas do homem levam-no para mais longe que todas as outras asas. As asas do homem ultrapassam os […]


Scroll Up