Espaço do Diário do Minho

Há coisas que já não são de estranhar
11 Set 2018
Luís Martins

Não são de estranhar as manigâncias de que se fala ter havido com a reconstrução de habitações em Pedrógão Grande. Ouvimos e lemos sobre o que se passou e ficamos atónitos, consideramos ter havido injustiças e ilegalidades e que os responsáveis, nomeadamente, os que fizeram e ajudaram a fazer batota, fossem punidos nos termos da lei. Certamente que não são casos únicos, mas o que é mais lamentável é o aproveitamento desenfreado e imoral que foi dado aos apoios que deixou, inclusive, várias famílias com uma única habitação e destruída a ver navios enquanto chico-espertos se valeram das relações privilegiadas com quem decidia. Pessoalmente, achava que se tinha chegado ao limite, ainda para mais quando estavam envolvidas instâncias públicas, ao que parece, com culpa no cartório. Mas, não. Soubemos a semana passada que o Governo, que apresentou processo de candidatura de Portugal à mobilização do Fundo de Solidariedade da União Europeia, para colmatar os prejuízos nas infraestruturas decorrentes dos incêndios de 2017, teve informação de deferimento das verbas solicitadas para o efeito – um pouco mais de 50 milhões de euros – e que pretende aplicar cerca de metade do valor em instituições do Estado, deixando de fora dos apoios a maior parte dos concelhos que tiveram prejuízos e que, aliás, foram contabilizados para efeitos da candidatura. Se isso se confirmar, significa que a decisão do Executivo português quanto à distribuição do montante de apoio evidencia um desvio de verbas para outros fins que não os que originaram a candidatura àquele Fundo. Estranho, mas nada que nos deva deixar boquiabertos. Se o Governo assim procede, como se pode evitar que outros casos imorais aconteçam noutros Serviços do Estado?

2. Rui Rio voltou de férias e, aparentemente, cheio de pujança, depois do descanso que alguns dos seus correligionários criticaram por ser longo. Chegou, foi ver os estragos dos fogos, mas antes ainda mandou uma mensagem prática para dentro do partido e, em concreto, aos candidatos das últimas autárquicas que se excederam nos gastos: não podem contar com ele para pactuar com despesa não autorizada, desde logo, a que ponha em causa as finanças da organização política que dirige. Foi bem compreendido – até arranjou mais uns anti-corpos que se juntaram aos anteriormente declarados –, mas mais criticado. Muitos dos sociais democratas que lhe fazem frente não estavam habituados, e provavelmente continuam a não estar – embora Rio tenha dado sinais da forma como pensa, designadamente, durante o tempo que passou ao leme da Câmara do Porto –, de que alguém leve a peito a coerência entre o discurso e a prática, ou seja, entre o que se apregoa e o exemplo que se dá. Os ferrenhos adversários – talvez alguns sejam mesmo inimigos, atenta a violência com que atacam o líder social-democrata –, que o criticaram por estar de férias, como se isso fosse anormal, estavam à espera, embora não sendo coincidentes as perspectivas e as estratégias de um e outros, que Rio estivesse medroso depois de lhe terem estado a cortar na casaca enquanto este lhes parecia alheio ao que se passava no país e alinhasse pelo diapasão que lhes convinha e que, por isso, lhes desse a corda. Afinal, Rio tinha as coisas estruturadas e as baterias apontadas para os alvos que definira: avisar que com ele o partido pode contar, mas não tolerará quem queira que mude o que não pode nem deve, por coerência; dar nota ao Governo e ao Partido Socialista de que lhes vai fazer oposição cerrada e que acredita ser ele a ganhar as próximas legislativas.

3. O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista não se querem colar a uma derrota que não é apenas dos sindicatos, mas também, e sobretudo, de ambos os partidos. Foram os partidos que fizeram o PS e o Governo recuarem na matéria da recuperação do tempo de serviço dos professores. Ninguém tem dúvida disso e eles ainda menos. Assobiam agora para o lado, disfarçando que o assunto não é com eles, como se o Parlamento não fosse responsável pelo acompanhamento e controlo da acção governativa! Será de estranhar?



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