Espaço do Diário do Minho

Sonhos desfeitos
10 Set 2018
Narciso Mendes

Francisco é um jovem estudante que frequenta o ensino secundário numa das escolas da nossa Bracara Augusta. E, sendo filho de uma mãe solteira é com ela que vive numa das ruas da cidade, a quem procura não estorvar, pois tem a noção de que a sua progenitora tudo faz não só para o ver feliz mas também para, um dia, o ver formado. Para isso, a senhora desdobra-se em trabalhos de limpeza que executa em várias casas de particulares. Trata-se de uma mulher bem-educada, filha de gente boa, séria e trabalhadora, embora com pouca escolaridade. Oriunda da aldeia, deparou-se com a única forma de, andando de casa em casa, poder ganhar honestamente o seu sustento e o do seu rebento. Valores que lhe procura transmitir e, ao que segundo parece, com bons resultados.

O rapaz há algum tempo que ambicionava ter um “ Iphone”, como o do seu amigo Tiago, porém sabendo das limitações orçamentais lá em casa, só lhe restava fazer como a sua mãe: procurar um trabalho a fim de  a não sobrecarregar e, sobretudo, contribuir para não ser um fardo duro de suportar. Desta feita, lá encontrou um emprego para o período de férias escolares a servir na esplanada de um café da cidade. Uma forma de preencher os tempos mortos e não se sujeitar a alguns vícios que a ociosidade favorece, ou enveredar por relacionamentos inconvenientes e desviantes. 

No final do mês, o Chiquinho logo que saiu do emprego ligou à mãe todo radiante e ao seu amigo Tiago do seu novo Iphone. Finalmente concretizara o sonho que acalentava há já algum tempo. Pois já podia comunicar, tirar aquelas fotos com que tanto sonhara e pesquisar, em termos informáticos, as suas dúvidas e as dicas para alguns problemas. Só que no regresso a casa foi abordado por três meliantes que o encostaram à parede e, apontando-lhe uma navalha, lhe sacaram a nova tecnologia com que sonhara, juntamente com o resto do ordenado. Valendo-lhe o facto de não lhes ter oferecido resistência.

Apesar de não ter sofrido agressões, o jovem ficou desolado, angustiado e num choro incontido ao sentir que tudo fora em vão. Mal podendo suportar a revolta que lhe ia na alma por ter sido extorquido, num ápice, de tudo quanto fora fruto do seu trabalho e do seu esforço. Era o final de um sonho construído a pulso, mas que acabara por ser desfeito por um trio de criminosos à solta. Ficando a pensar naquele gente fardada – de arma à cintura que – que raramente aparece, a não ser para passar multas de trânsito e estacionamento. A qual sempre que efetua alguma detenção e a leva à presença de um magistrado, logo a liberta a fim de ser perseguida e, de novo, voltar à vida criminal.  

Nos dias de hoje, são inúmeros os jovens que aproveitam o tempo livre para trabalharem, sobretudo no setor da restauração. E, eu próprio já tenho encontrado licenciados, à espera de fazerem o mestrado, a servirem às mesas da hotelaria e dos cafés. Mas não só. Quantas vezes sou ultrapassado, na via pública, por motinhas de entregadores de pizas, a procurarem desenvencilhar-se do trânsito para que elas cheguem ainda quentes à mesa dos clientes. Um serviço que envolve um certo risco mas que alguém o teria de fazer. Afinal, não é todos os dias que se arranja um emprego e há que agarrar aquele que aparece, mesmo tendo a consciência de que o perigo espreita.

Na verdade, de vez em quando, lá aparece a notícia de um entregador que foi assaltado, ficando ora sem as pizas ora sem o dinheiro proveniente dos clientes. Situações que os deixam vulneráveis, porque indefesos. E em outras vezes, surgem envolvidos em acidentes, como foi o caso daquele jovem estudante da Universidade do Minho, de 23 anos, o João Luís, em 16 de Agosto último, atropelado por uma viatura que se despistou a alta velocidade contra o seu motociclo, deixando-o prostrado no chão. Isto, enquanto o veículo e o seu condutor encetavam uma fuga miserável, indiferentes à vida e aos sonhos desfeitos desse jovem bracarense que, na flor da idade, acabaria por morrer. 

   



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