Espaço do Diário do Minho

O corpo fala quando as palavras mentem (2)
10 Set 2018
M. Ribeiro Fernandes

1. Interrompi a continuação deste tema por causa da publicação do artigo sobre Viktor Frankl, que fazia 21 anos sobre a data do seu falecimento no dia 2 de Setembro. Retomamos hoje a continuidade do tema, apresentando mais alguns sinais que podem indiciar que há outra comunicação por detrás da comunicação verbal, isto é, que podem indiciar mentira. É que nem sempre as palavras dizem o que pretendem dizer… Neste aspecto, o uso das mãos é muito significativo. Por exemplo, quando uma pessoa quer justificar que está a ser sincero mostra as palmas das mãos, como se estivesse a dizer: vejam que não há nenhuma arma escondida na minha (os estudiosos que procuram explicar a linguagem dos gestos através da evolução dizem que, dantes, o interlocutor podia levar uma arma escondida na mão e que mostrar a mão aberta ficou a ser conhecido como um gesto de sinceridade). Quando a criança pretende esconder alguma coisa, costuma escondê-la com as mãos atrás das costas; quando um adulto quer disfarçar, por exemplo, o que andou a fazer durante a noite, geralmente esconde as mãos nos bolsos ou esconde-as cruzando os braços. Se esse adulto for uma mulher, poderá tentar desviar a conversa para outro assunto, mostrando-se atarefada em fazer várias coisas ao mesmo tempo, como se quisesse dizer que não tem tempo a perder com essas questões. Quando o nosso interlocutor mete as mãos nos bolsos pode significar que está a dizer que não está interessado na conversa. As mãos desempenham aqui o papel de cordas vocais da linguagem do corpo: escondê-las é como tapar a boca e não querer falar. 

2. Vejamos, então, mais alguns gestos em que o uso das mãos pode indicar uma situação de mentira. 

2.1.Tapar a boca com a mão. Levar a mão à boca para a tapar é um dos gestos mais significativos da tendência natural do organismo para ser coerente com o que a mente pensa. É como que uma reacção instintiva do cérebro consciente a mandar calar a boca por estar a dizer palavras que não correspondem ao que está a pensar. O gesto automático da criança, que tapa a boca com a mão quando mente, vai-se estilizando com a idade, até ficar reduzido ao gesto de ir com um ou dois dedos perto da boca ou ir com a mão ao queixo: chamavam a isso cofiar a (barba) pera. É um indicador de reacção à mentira. Tanto pode ser de quem fala como do que ouve e reage à mentira de quem está a falar, um gesto quase instintivo a dizer que não acredita.

2.2. Tapar o rosto com a mão. Diz-se que tapar o rosto com as mãos foi o gesto mais observado em todo o mundo depois do atentado de destruição das Torres Gémeas, em Nova York, a 11 de Setembro de 2001. Era uma reacção instintiva a querer negar esses terríveis acontecimentos: não os querer ver era equivalente a não querer que eles tivessem existido.

2.3. Coçar levemente no nariz. É um gesto diferente do esfregar o nariz por ter comichão. O gesto de coçar levemente no nariz ou de tocar levemente no nariz está também relacionado com a mentira. Pode significar disfarçar a mentira ou que não concorda com o que está a ouvir. É um significado próximo da expressão popular torcer o nariz, que significa desconfiar, não concordar.

2.4. Esfregar o olho ou os olhos. Este gesto de coçar o nariz pode migrar para outra zona da face, por exemplo, os olhos. Quando uma criança não quer ver uma coisa, tapa os olhos com as mãos ou com a mão; quando um adulto não quer olhar para uma coisa que lhe desagrada ou quer dissimular que não está a olhar, simula que esfrega o olho, em vez de o tapar como a criança, para que o gesto não seja tão evidente.

2.5. Os dentes. O mesmo gesto de pretender esconder alguma coisa pode migrar para a zona dos dentes. Por exemplo, dizer alguma coisa por entre os dentes significa que não quer que se saiba, que é segredo, que pode ser mentira. De alguém que é considerado mentiroso diz-se que “mente com todos os dentes”. Pode-se expressar com o gesto de cerrar os dentes, com um sorriso falso e esfregar o olho ou menear a cabeça.

2.6. Coçar o lóbulo da orelha. Agarrar e coçar o lóbulo da orelha também pode ter o mesmo significado; mas, feito de outra maneira, pode significar concordância, dizer que é bom, que “é de trás da orelha”, que é um bom negócio. O gesto de tapar o ouvido significa que discorda, que é mentira, que não está para ouvir disparates. Na Itália, este gesto de agarrar a orelha referindo-se a alguém pode querer dizer que é “efeminado ”.



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