Espaço do Diário do Minho

L’enfant terrible
10 Set 2018
Paulo Fafe

O facto mais relevante durante as férias de verão, em termos políticos, foi a criação de um novo partido, o partido de Pedro Santana Lopes, o Aliança. Santana Lopes passou de enfant terrible de outrora a chefe temível de hoje.  Há quem diga de enfant terrible a enfant trouvé, isto é, de criança terrível a criança abandonada. Por que dizem isto assim? Porque Santana Lopes tornou-se temível para todos ou quase todos os outros partidos do nosso xadrez político porque pode  capitalizar os descontentamentos dos que estão sem partido ou, tendo-os, estão insatisfeitos com ele. Por isso é terrível a aparição deste novo partido porque disputa esta franja de eleitorado; é terrível ainda porque esta franja não é uma abstração mas existe realmente e é uma grande maioria. Tem o expresso desejo duma renovação partidária.  Acusam Santana Lopes de ambicioso. Mas se o homem político não tem ambição pessoal ou ambição política, pergunta-se, que está a fazer na política? Santana Lopes espreitou bem esse nicho eleitoral e nele quer fazer ninho. Acusam-no de fazer da criação do Aliança uma desforra pela perda da liderança do PSD. Não sei medir intenções destas. Mas o que se me afigura é que o Aliança pode vir a ser um partido da troica da direita e, quem sabe, duma outra troica liderada pelo PS.  Se o PSD e o CDS não conseguirem uma maioria parlamentar nas próximas eleições legislativas, se o PS e os partidos da esquerda também não conseguirem uma maioria, lá estará Santana Lopes para fazê-la, tornando-se o partido mais importante das maiorias. A ideologia do Aliança é o pragmatismo político e não a ideologia doutrinária? Se assim for torna-se num partido de conveniências, fazendo lembrar o ex-PRD. Parece-me não haver neste novo partido a intenção de formação duma nova sociedade, a criação de um homem novo ou a constituição de uma nova economia. O que a sociedade atual quer é uma democracia realista, onde o estado e povo encontrem a sua existência do dia-a-dia, a real, numa harmonia social, mas que tenha uma filosofia própria e bem definida do que é e do que quer para essa mesma sociedade. Um partido não pode ser uma oficina, tem de ser uma escola.Não sei, e suponho que é muito cedo para saber, se o Aliança encarna este estado de espírito da sociedade portuguesa. Quem um dia souber fazer esta síntese terá atingido a maturação política e encontrado a essência do povo português.  Não tem sido fácil conciliar estes dois elementos porque umas vezes a ideologia quer tudo para o estado, outras vezes a ideologia dá tudo ao poder económico. A velha luta entre socialismo e capitalismo. E estes dois princípios estão errados; não são a expressão profunda do  sentir da sociedade portuguesa que é, estado sim, mas indivíduos também; sem estado a sociedade vira anarquia, mas quando o estado se apropria do povo, este vira uma estatística. Mas há quem queira deixar de ser ele para ser estado? Há quem não se importe de sacrificar a liberdade individual a favor do estado! Um dia fui abordado por um indivíduo que, em palavras e gestos exuberantes, se me dirigiu a respeito de um escrito aqui publicado  onde eu colocava a liberdade individual como sinal de dignidade humana. Depois de o ouvir pacientemente sobre as maravilhas do coletivismo de estado, perguntei-lhe onde colocava a liberdade individual. Respondeu-me: “liberdade para quê, para que é que eu quero a liberdade?”. Há gente assim. Satisfazem-se fazendo mééé; não são estes “carneirinhos”que Santana Lopes levará para o seu partido; serão certamente aqueles que, cansados dos velhos partidos e aborrecidos com as suas estratégias, e querendo experimentar novas opções, podem vir a votar no Aliança, pelo menos como experiência.



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