Espaço do Diário do Minho

Não
3 Set 2018
Paulo Fafe

Este monossílabo encerra em si uma orientação de vida. É preciso saber dizer não como saber dizer sim. O não é antipático a maior parte das vezes e não raro cria conflitos. Olhando à minha volta, numa basta sala de jantar dum hotel, fui observando o comportamento de miúdos, à mesa.

Alguns querem tudo por querer; outros querem depois de lhes ser consentido poder querer; e querem assim os primeiros porque a educação fê-los egocêntricos.

Daí tomarem o mundo como seu a girar à sua volta. São árvores tenras que, se não forem amparadas desde o início, ou rastejarão em vez de se erguerem altaneiras, ou serão árvores ajustadas para espaços selvagens em companhia doutras árvores não podadas.

Com as crianças esta “poda” deve ser feita com nãos; cada não, não deve ser dado como uma vergastada que deixa vergão na personalidade, antes como uma mão que ajuda; deve ser administrado como quem tem na mão a pomba que não quer deixar fugir.

Há quem aprenda a ser educador e outros há que nasceram para educar. Estes sabem que a educação serviu para o homem dominar os seus instintos; só assim o homem se distanciou e distinguiu dos outros animais; sabem também que é preciso educar uma criança para ser adulto sem se esquecerem que lidam com uma criança. O não é uma ferramenta de ensino; em termos de ciências da educação, é pedagogia enquanto doutrina e é didática enquanto caminho, dizemos nós.

Quando a birra, o amuo, o choro se tornam ou se transformam em chantagem de crianças, é preciso manter o não com firmeza. Repetimos: apertar sem matar a pomba. A criança, ao aperceber-se que há limites, aos poucos a eles se submeterá porque intui que há, em presença, outras pessoas e outros interesses que não apenas os seus; baliza o seu livre-arbítrio. Perceberá que conviver é estar com os outros.

Não sabe definir as situações mas intui-as como processo, na socialização. A criança da mesa ao lado, borrifava a comida que lhe metiam à força na boca, berrava porque queria o copo da irmã, arrancava o guardanapo que lhe servia de baba e estrebuchava para se livrar do cinto da cadeirinha; quem olhava aquela criança, percebia de imediato que não havia nãos naquela educação. E a criança chorava e não compreendia por que razão lhe proibiam ali o que lhe consentiam em casa.

Não era ali que os seus comportamentos deveriam ser castigados. Não se educa em público mas educa-se para estar em público. Outra criança, a quem certamente foi dito não algumas vezes, tinha um comportamento completamente distinto: era sorridente. As lágrimas dos nãos de hoje, são sorrisos no futuro.

Um dia perguntaram a um criminoso sentenciado à morte qual era a sua última vontade; pediu para dar um beijo à mãe; quando na sua presença, arrancou-lhe o nariz com uma dentada. Porquê? Porque ela nunca me soube contrariar, disse ele.

Desenganem-se aqueles que cuidam que dizer não é contrariar uma personalidade nascente. Pior que contrariar é deixar fluir os instintos. É crime deixar andar sem limites o comportamento infantil; sem horizontes até um adulto se perde; as crianças, potencialmente desajustadas sociais, são as que não experimentaram um não como resposta; serão certamente crianças que arrancariam os narizes a quem nunca soube dizer-lhes NÃO.

Oxalá que os educadores acordem para o não, a tempo de preservarem os seus narizes. No trânsito como na educação, há sentidos proibidos que há que respeitar. Assim como há árvores que necessitam de ser podadas para dar bons frutos.



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