Espaço do Diário do Minho

Negligências de muitos e a nova propaganda de Mário
28 Ago 2018
Luís Martins

1. O país está a ficar um caos. É verdade, hoje, no dia em que começo a escrever esta crónica, estou talvez um pouco frágil, mas uma crónica também pode reflectir isso. Explicito o meu estado de espírito com alguns exemplos que me perpassam o pensamento: pessoas que matam, isso, que matam, embora por negligência ou por estarem sob o efeito de álcool, com taxa de alcoolemia muito acima do permitido por lei, que não ficam presas enquanto esperam pelo julgamento; sendo que estes indivíduos acabarão depois, muito provavelmente, por serem condenados com 2 ou 3 anos de prisão com pena suspensa (!), o mesmo que nada, apenas com eventual peso de consciência – o legislador sabe isso;

traficantes que são detidos depois de aturadas e dispendiosas diligências por parte das forças de segurança e que são, não raras as vezes, soltos logo depois do primeiro interrogatório da justiça – quem aplica a lei não é quem a faz; casos de lesa-pátria sem esclarecimento, nem cabal nem oportunamente, deixando os responsáveis políticos e operacionais refastelados nos lugares de eleição, sem nenhuma vergonha e sentido de Estado – isto é a política sem freio;

casos de corrupção e outras malfeitorias ao Erário Público que se arrastam indefinidamente – outra vez a lei; os êxitos retumbantes reclamados pelo Governo com as tragédias – o populismo no seu esplendor; a constatação de que a maioria dos incêndios tem origem negligente e criminosa e de que não existe precaução bastante por negligência do Executivo e outros, etc.

2. Em Novembro de 2015, do palanque mais elevado de onde conseguiu falar, Mário atacou veemente e certeiramente na prática do governo da altura e nos seus defensores, acusando-os de seguirem uma ideologia perversa. Defendia ainda que a designada “saída limpa” conseguida pela maioria de então, embora relativa, não passava de propaganda.

Dei-lhe razão e também achei – disse-o na altura mais do que uma vez neste espaço – que tinha sido cobarde a entrada e a aceitação do pesadelo que nos tinha sido prescrito e que, portanto, a saída, assim, nunca seria limpa.

Mário foi – bem, mostrou que era e eu, pessoalmente, acreditei – um intrépido crítico das receitas da Europa e dos credores internacionais para os países com problemas financeiros como o nosso que, aliás, teve oportunidade, quando na oposição, de acompanhar de perto. Estranho é que, agora, a ler e a dizer de sua justiça noutra cadeira, a sua perspectiva seja radicalmente diferente. Em que ficamos? O discurso de agora é o que corresponde ao seu pensamento e o de então estava errado e era apenas para impressionar o secretário geral socialista ou há aqui algo que não conseguimos descortinar?

Falo no plural, porque somos muitos os que estranhamos a conversa que gravou sobre a libertação da Grécia e, no fundo, sobre os programas de ajustamento que estiveram em vigor. Bem sei que plateia e palco são coisas diferentes, mas coerência existe num e noutro sítio, embora haja, pelos vistos, quem tente ajustá-la, mesmo que a qualidade não seja variável de nenhuma equação, mas, antes, um valor independente do resultado. E falo em coerência, não apenas por causa do discurso, mas, sobretudo, por causa dos resultados que o induziram. Explico-me.

Quando estava na plateia, com o encenador a seu lado na segunda fila, disse o que disse fundamentado nos resultados do seu país: a riqueza estava, apesar do programa, abaixo do nível que apresentava antes da crise (-10%); o nível de desemprego rondava os 15%; e a dívida pública subira para cerca de 130% do PIB. Agora, no palco, com o encenador na primeira fila da plateia, disse o que disse sobre a Grécia com base nos resultados alcançados pelo país que tivera o Olimpo e muitos deuses: a riqueza está 25% abaixo da que apresentava antes da crise; o nível de desemprego ronda os 20%; e a dívida pública ultrapassa os 178% do PIB. Se há coerência, que venham os deuses e nos façam crer.

Sem ajuda sobrenatural, vai ser impossível perceber. Pessoalmente, não votaria num partido, nem mesmo com um dos olhos fechados, que aceita um actor que perde a orientação tão facilmente. Em 2015, concordei com o despedimento por “justa causa”, a propaganda não se justificava. Mas, hoje, que diferença faz a nova propaganda da anterior?



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