Espaço do Diário do Minho

A cultura será salva pela espiritualidade?
28 Ago 2018
João António Pinheiro Teixeira

1. Na vida, não basta haver caminhos. É necessário que, sem tutelas, haja uma indicação clara acerca dos caminhos. Sem indicações, não sabemos para onde os caminhos nos levam. Todos são equivalentes. A indecisão será inevitável e o desnorte total. O mundo de hoje é marcado, em todos os domínios, pelo pluralismo. O que falta é uma bússola, um critério, uma orientação, uma regra, uma referência, em suma, um cânone.

2. A música clássica, por exemplo, é umprimorpara os peritos e um tédio insuportávelpara as multidões. Estas idolatram cada vez mais o espectáculo e tendem a valorizar o que provoca agitação. É por isso que, numa época que esvaziou quase todos os cânones, oespectáculodesponta como o padrão mais destacado.

3. Aliás, nem o fenómeno religioso escapa a este enquadramento. Parte-se do princípio de que as iniciativas, para obterem adesão, têm de acolher alguma cedência ao espectáculo. Certos sectores procuram mais deslumbrar do que esclarecer, empenhando-se mais em emocionar do que em aprofundar. Quantas vezes já não ouvimos descrever certos actos e determinados intervenientes com estes qualificativos: «Esta procissão foi um espectáculo!» ou «Este padre é mesmo um espectáculo!».

4. Não é difícil descortinar a causa de tudo isto. Actualmente, a cultura deixou de estar nas mãos de uma elite. A cultura globalizou-se, democratizou-se; mais, massificou-se. Praticamente todos têm acesso ao seu consumo. Mas será que todos têm a preocupação de apurar minimamente um critério?

5. Nos tempos que correm, deve haver poucos conceitos tão elásticoscomo cultura. Nela cabe o mais erudito e o mais popular, o mais elaborado e o mais rudimentar, o mais sublime e o mais boçal. Provavelmente, os maiores aplausos vão para o mais prosaico. Na maior parte dos casos, a quantidade vai num sentido oposto ao da qualidade.

6. Vargas Llosa rebela-se contra a corrente dominante, que identifica a cultura com «todas as manifestações da vida de uma comunidade». A indeterminação é tal que a cultura pode chegar a ser entendida «apenas como uma forma agradável de passar o tempo». O resultado é que «tudo se iguala e unifica até ao extremo de uma ópera de Verdi, a filosofia de Kant, um concerto dos Rolling Stones e uma actuação do Cirque du Soleil se equivalerem». Estamos no domínio da cultura ou do mero divertimento?

7. Como quase tudo funciona em termos de espectáculo, é natural que também quase todos se posicionem em termos de encenação. A vida torna-se um espectáculo para si própriae umaespectadora de si mesma. As escolhas são comandadas por um processo de futilização, pelo qual o mais medíocre é bem capaz de ser o mais apreciado.

8. O que mais assusta é o clima de conformismo que se verifica, quando é suposto que a cultura forneça uma fonte de inconformismo e lucidez. É por isso que as ditaduras abominam a criação cultural. Vargas Llosa recorda que o primeiro acto do nazismo, assim que chegou ao poder, foi queimar livros em frente da Universidade Humboldt.

9. Na hora que passa, a cultura está a ser posta em causa não peloautoritarismo, mas pela frivolidade. Ela só sobreviverá, segundo Vargas Llosa, «com uma vida espiritual intensa, que mantenha viva uma hierarquia de valores respeitada pelo corpo social». É por isso que, sendo o conhecimento importante, a cultura é «algo anterior ao conhecimento». Trata-se de «uma propensão do espírito, de uma sensibilidade e de um investimento na forma que dá sentido ao próprio conhecimento».

10. Daí que a cultura não consista na quantidade de conhecimentos, mas na qualidade dos conhecimentos. Uma vez mais sobressai o papel de uma educação que congregue aqueles que deveriam ser os seus dois grandes objectivos: criar bons profissionaise ajudar a preencher os vazios no campo espiritual!



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