Espaço do Diário do Minho

Que bem que sabe…
27 Ago 2018
Narciso mendes

Descanse, o caro leitor, que hoje não lhe vou falar da política do reino, nem tão pouco da autarquia local. Mas tão-somente de um período inesquecível da minha infância. Pois são poucas as pessoas que abordam este tema, quer por não terem sido suficientemente felizes, nessa altura, ou por possuírem complexos e queixas relativos a esses tempos de pureza. É que se até aí tudo me parecia andar extremamente devagar, logo que cresci e me tornei adulto, dá-me a ideia que os dias começaram a andar demasiado rápido. Por isso, momentos houve na vida e amizades que, hoje, sabe bem recordar.

Começarei por dizer que numa destas solarengas manhãs tive uma surpresa tão agradável que me deixou extremamente feliz. É que nem podia imaginar que alguém, naquele momento, se estivesse a lembrar de mim. Alguém que, no local das minhas brincadeiras de criança, com a mesma proveta idade, ali estivesse a recordar as nossas tropelias e aventuras de quando éramos miúdos. E que bem que soube, atender o telemóvel e ouvir do outro lado o meu amigo Luciano que se encontrava no local a trazer-me à memória a nossa paixão pelos aviões. É verdade, ligava-me ele do Campo d’Aviação onde não só curtíamos as aeronaves, mas também os grilos cantadores que apanhávamos.

Meu Deus, que bem que sabe, após estes anos todos, ouvir a voz de um amigo que me considera e mantém os laços de amizade de antigamente: com a mesma naturalidade e clareza; com a descrição fiel de tudo quanto havíamos passado; de me proporcionar sentir a emoção com que descreve um tempo que já passou, mas que continua presente nos nossos corações. É mesmo bom, poder contar que a todo o momento nos poderemos encontrar e trazer à liça da conversa uma série de enredos, inocentes, em que estivemos envolvidos, sem que nos apercebêssemos da verdade ou falsidade do que nos diziam, ou nos prometiam alguns adultos.

Como daquela vez em que o guarda do aeródromo o Sr. António “Batata” nos confidenciou que no dia seguinte, às 6h00 da manhã, iria aterrar naquela pista um enorme avião bombardeiro procedente dos Estados Unidos da América. E, nessa noite, mal dormimos a pensar no assunto, pois havíamos combinado deixarmos as nossas casas, sorrateiramente, por volta das 5h30 da madrugada. Plano que executamos, à revelia dos meus progenitores e da dele, pois já não tinha pai e, lusco-fusco, lá atravessamos o lugar da Nora, em S. Pedro de Merelim, onde morávamos, até ao Campo d’Aviação. Ali permanecemos, à porta do hangar, de olhos postos no céu. Só que nem avião, nem “Batata” que, entretanto, folgara. E já de tarde, em jejum absoluto, lá regressamos a casa onde nos esperava uma – inolvidável – surra maternal. Ainda hoje, lamentamos a ingenuidade com que engolimos semelhante patranha. 

O “Batata” já estranhava quando não nos via por lá. E se nos esperava era naquele dia. Pois precisava que o ajudássemos a abastecer uma avioneta estacionada na placa. Lá fomos buscar o escadote, abrimo-lo junto à asa, o Luciano subiu para a dita com o balde do combustível enquanto eu, no pequeno escadote, segurava no funil, à espera que ele o despejasse. Isto, enquanto o guarda dava ao braço da bomba, manual, para encher outro balde. Só que como éramos franzinos, a dada altura, o funil encheu de mais, tombou, levando um banho de gasolina que me deixou todo encharcado.   

Que bem que sabe relembrar estas peripécias de um tempo em que, ainda, andávamos na Escola Primária e Doutrina. Em que víamos naqueles homens – que voavam em tais máquinas – seres superiores. E que bem que sabe evidenciarmos, hoje, que para voarmos não precisamos de andar por lá, atrás de boleia de um piloto mais amável. Sabermos, agora como adultos, que por apenas 30 € podemos, querendo, sobrevoar a cidade dos Arcebispos durante 20 minutos, graças à iniciativa do “Céu Listrado”, em dias de portas abertas à comunidade. Bem como podermos fazer parte do seu corpo associativo, tornando-nos seus sócios ou apenas entusiastas.



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