Espaço do Diário do Minho

Brexit, “uma gota de água no oceano”…
27 Ago 2018
albino gonçalves

Convivendo há trinta dias num ambiente agradável em Inglaterra, tenho acompanhado atentamente, através da principal comunicação social britânica (Sky News, RT e BBC News), o litígio do irreversível e incontornável “divórcio” do Reino Unido (UK) com a União Europeia (UE), com data marcada para o dia 29 de março de 2019.

“Muita tinta ainda vai correr”, porque é um dossier de elevada complexidade para ambos os lados e é certo que Theresa May não vai defraudar a vontade dos quase 52 % da população inglesa apoiante do Brexit, das regiões a sul de Londres, contra os que defendem a continuidade do UK na UE, sabendo-se que esta vontade de permanência europeia reside nos grandes centros urbanos de Liverpool, Manchester, Belfast, Leeds, etc., ou seja, com maior impacto a norte da capital londrina.

A primeira-ministra Theresa May, que substituiu em julho de 2016 David Cameron, defende um entendimento coeso, responsável e sem conturbação processual na harmonização dos acordos, manifestando total disponibilidade na abertura expansionista da troca comercial com a União Europeia, incluindo o alívio nas taxas alfandegárias, como inicialmente era unânime entre alguns dos protagonistas do seu Governo, no aumento na política aduaneira, taxação de impostos e subida do IVA.

A líder do Governo britânico é apontada como uma personalidade de elevado cariz estratégico, mune-se de uma virtude rara no perfil dos governantes que é manter o que diz, resiliente por formação educativa e académica em nunca se deixar abater pela derrota e empenhar-se na obtenção de melhores resultados, assumindo desde a demissão do seu aliado e braço direito, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, as negociações do Brexit na sua reta final.

No tocante a Portugal, exportou bens (automóveis, acessórios, equipamento eletrónico, medicamentos, produtos têxteis e calçado, papel e vinho), no valor de 1300 milhões de euros, contra a importação do Reino Unido (automóveis, sucata [desperdício de ferro e aço], equipamento de tecnologia telegráfica e telefones, medicamentos, sangue humano e vacinas, bebidas espirituosas, gás de petróleo e hidrocarbonetos gasosos), no valor aproximado de 710 milhões de euros.

Embora não recenciada desde 2016, a comunidade portuguesa calculada em 147 mil cidadãos a trabalharem e domiciliados no Reino Unido, parece ter encontrado o caminho de vida na vertente de projeto de continuidade profissional e residencial, não temendo qualquer efeito do Brexit alocado ao estatuto de “emigrante”. Será muito difícil alternar o seu país de origem como retorno estrutural no âmbito da sua permanência profissional, social e familiar, devido à crescente dificuldade de arranjar emprego a sério.

O Governo de May tem sofrido diversos golpes de bastidores em sintonia com as divergências da oposição dos mais radicais sobre a manutenção das relações bilaterais com Bruxelas e ao alargamento da expansão comercial da Commonwealth havendo indicadores presumiveis na fragilidade económica e debilitação monetária face aos superiores interesses do UK.

Theresa May, uma governante muito restrita no espaço público, tem como “assessor” de confiança absoluta o seu marido Philip May no debate de ideias e status políticos, persistindo em levar a bom porto com a diplomacia que lhe é reconhecida, uma separação da União Europeia por mútuo acordo, sem interesse em causar feridas à volta das negociações e seduzindo outros espaços comerciais fora da jurisdição da UE.

Os cidadãos britânicos dão como dado adquirido que o seu país, no início de abril de 2019, não fará parte da “irmandade” da União Europeia, na expetativa de uma saída saudável e favorável em prol do reforço da soberania económica, social, monetária e estrutural, apesar de metade da população do Reino Unido inquirida, desejar um novo referendo sobre a permanência ou não no espaço comunitário, vontade esta rejeitada pelo Governo de Theresa May.

Até ao dia do desalinhamento entre este “casal” (UE/UK), “muita tinta ainda vai correr”.



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