Espaço do Diário do Minho

No crepúsculo da tarde…
21 Ago 2018
J. M. Gonçalves de Oliveira

No crepúsculo da tarde, desfrutando ainda da acalmia proporcionada pelo tempo de férias, dei por mim a pensar, entre outros assuntos, no imenso burburinho produzido na comunicação social e na classe política pelo convite, entretanto já retirado, a Marine Le Pen para vir a Lisboa falar na Web Summit.

De tudo o que pude ler e ouvir, chego à conclusão que uma parte da esquerda só entende a democracia quando não tem de enfrentar os seus detratores, sobretudo se eles se situam nos antípodas do seu espetro ideológico. Na verdade, em diferentes momentos, não lhe vi a mesma oposição às visitas que os ditadores Fidel Castro e Hugo Chavez fizeram ao nosso país. Nem tão pouco avisto a mesma relutância quando se trata de criticar Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, ou de Nicolás Maduro, presidente da Venezuela.

Não comungo das ideias de Marine Le Pen, não tenho qualquer simpatia pela sua personalidade e considero-a uma demagoga e uma ameaça real para o futuro da Europa pela intolerância, racismo e xenofobia que defende. Contudo, como a liberdade de expressão é uma virtude intrínseca e um princípio básico da democracia, não posso concordar nem com a intolerância para a defender, nem para dar combate sem tréguas aos seus possíveis carrascos.

Um pouco depois, regozijei-me com as notícias vindas do outro lado do Atlântico que me dizem que mais de trezentos órgãos de comunicação social norte-americanos, numa iniciativa ímpar iniciada no Boston Globe a favor da imprensa livre, deram uma resposta inequívoca a Donald Trump contra o autoritarismo. O presidente americano, poucos dias antes, tinha considerado a comunicação social como inimiga do povo.

Ainda arrebatado com as novidades do Novo Mundo, fui parar aos recentes números vindos a público sobre o crédito ao consumo em Portugal. Cerca de vinte milhões de euros são concedidos diariamente a quem os solicita para os mais distintos fins como comprar carro, ir de férias ou outros destinos mais ou menos supérfluos. Não estaremos a cair em aventureirismos excessivos? Já teremos esquecido os erros de um passado ainda não muito longínquo?

Um simples e breve esforço de memória transporta-me rapidamente para os tempos do consulado do último governo de José Sócrates. Tudo era fácil, não havia impossíveis e o resultado foi o que todos sabemos. Famílias endividadas, insolvências em catadupa e o país a caminho da bancarrota, tendo culminado com o pedido de ajuda externa, com as consequências que ninguém devia esquecer.

Quase disposto a concluir esta divagação, ainda fui parar à greve dos enfermeiros e ao seu braço-de-ferro com a tutela sobre a negociação das carreiras da classe e à insistência dos professores na contagem total do tempo de serviço para efeitos de progressão.

Se uns e outros advogam que tudo lhes foi prometido pelo Governo e que só agora este se lembrou que não tem dinheiro para satisfazer as promessas, como desatar tamanho nó? E que dizer das ameaças dos sindicatos sobre a pressão que irão fazer sobre os partidos que suportam a atual solução governativa para não viabilizarem o Orçamento do Estado para o próximo ano, se estas reivindicações não forem satisfeitas?

Nesta sucessão de pensamentos, ainda me veio à ideia o título do meu último texto neste jornal – Inquietante bonança – e de imediato aferi da sua oportunidade.

Na realidade, a aparente quietude destes dias quentes de verão não passa de um falso remanso.

A atitude intolerante de todos aqueles que esquecendo honras e louvores a uns tantos ditadores se comportam de maneira totalmente oposta quando em questão estão personagens idênticas, mas de sentido contrário; o perigoso endividamento do povo português e as nefastas consequências que pode acarretar; a proliferação de greves e os presságios sindicais sobre a viabilidade do próximo Orçamento do Estado são factos muito preocupantes.

Se a tudo isto juntarmos a fragmentação partidária à direita do espetro político português, de que é exemplo o recente anúncio de um novo partido patrocinado por Pedro Santana Lopes, após ter abandonado o PSD, é de prever um fim de estação verdadeiramente escaldante.



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