Espaço do Diário do Minho

A fé só faz sentido ao lado da justiça
21 Ago 2018
João António Pinheiro Teixeira

1. Os tempos não correm fagueiros para a moderação nem, obviamente, para os moderados. No mundo e em quase todos os sectores da vida, são os extremos que predominam, agredindo-se e correndo o risco de (mutuamente) se anularem.

2. Não foi por mero ornamento retórico que Eric Hobsbawm qualificou a nossa época como sendo a «era dos extremos». Os extremos são sedutores pela (aparente) clarificação. Mas tornam-se ameaçadores pela (perigosa) simplificação.

3. Estigmatiza-se a moderação como sendo incapacidade de optar. Acontece que a autêntica moderação nasce da capacidade de fazer a síntese entre diferentes e de operar a convergência entre contrários.

4. Habitualmente, preocupamo-nos com os erros doutrinais. E tendemos a negligenciar a falhas vivenciaisO ortodoxo não é aquele que aprende mais doutrina, mas aquele que procura viver melhor a doutrina que aprende. As duas dimensões são importantes. Postulam-se.

5. Uma síntese não é apenas uma condensaçãode posições diversas. É, acima de tudo, um esforço de encontroentre visões diferentes. Uma síntese acaba por ser o movimento que vai da tese para a antítese. A síntese não é, pois, o que vem apósa tese e a antítese, mas o que está entrea tese e a antítese.

6. Abrir pontesonde costuma haver murosé uma missão espinhosa, mas é igualmente um trabalho estimulante. É importante que se defendam pontos de vista próprios. Mas também é salutar que não falte abertura às posições dos outros, ainda que pareçam opostas. Na procura da verdade, há certamente correcções a fazer e precisões a efectuar. Mas tais correcções e precisões devem surgir mais como um serviço fraterno do que como uma sentença inapelável.

7. No tempo, todos participamos da condição de «homo viator». Ainda não atingimos a meta. Ainda somos (todos) viandantes, peregrinos de uma pátria cujos vislumbres nos vão sendo oferecidos.

8. Numa Igreja que se vê como um corpo (assim no-la apresentou S. Paulo), todos são portadores de um carisma, de um dom. Os carismas e os dons não são estanques. Circulam em todos e interpelam-se entre si. A verdade é sempre para procurar. Alguma vez será para possuir? Fundamental não é possuir a verdade, mas deixar-se possuir pela verdade.

9. Mantenhamos, por isso, a indispensável coerência nos princípios e não desleixemos o inadiável compromisso com a sua aplicação. Quem não ama o próximo como pode pretender amar a Deus?

10. Não separemos o que Deus uniu. Foi Deus que uniu a verdade e o amor, a doutrina e a caridade. Neste caso, querer menos que tudo é querer nada!



Mais de João António Pinheiro Teixeira

João António Pinheiro Teixeira - 25 Set 2018

Só cavilosamente se poderá presumir que, igualando-nos ao mundo, não nos contaminaremos com o pior que há no mundo. Se o objectivo é ser igual, como conseguiremos saber quando temos de ser diferentes? Infelizmente, somos cristãos num mundo onde há delitos que nem os mais pequenos poupam. Quando tais crimes são cometidos por cristãos, tornam-se ainda […]

João António Pinheiro Teixeira - 18 Set 2018

Eis as duas marcas da Igreja no mundo: presença e diferença. A Igreja está presente «no» mundo para ser diferente «do»mundo. É pela diferença que a Igreja qualifica a sua presença. Se não corporizar uma diferença, que sentido terá a sua presença? Jesus estabeleceu o princípio que há-de articular a presença com a diferença. É […]

João António Pinheiro Teixeira - 28 Ago 2018

1. Na vida, não basta haver caminhos. É necessário que, sem tutelas, haja uma indicação clara acerca dos caminhos. Sem indicações, não sabemos para onde os caminhos nos levam. Todos são equivalentes. A indecisão será inevitável e o desnorte total. O mundo de hoje é marcado, em todos os domínios, pelo pluralismo. O que falta é uma bússola, […]


Scroll Up