Espaço do Diário do Minho

Chiu! O silêncio é de ouro
20 Ago 2018
Narciso Mendes

Devido ao “caruncho”, próprio da idade, resolvi frequentar a piscina, onde arranjei um problema auditivo que me levou ao médico de otorrino. De facto, tinha o ouvido obstruído. Chegado aí, logo ele admitiu que uma boa aspiração me resolveria o problema, aliviando o meu mal-estar.

E assim foi. Rapidamente, senti um enorme alívio e lá deixei o consultório todo satisfeito. Só que aquilo que à primeira vista parecia simples e banal logo se viria a transformar num outro caso mais complexo, levando-me a consultá-lo de novo.

E após um exame de audiometria, o veredito não podia ter sido mais concludente e preciso quanto à gravidade, nele, declarada. Tinha, de facto, uma lesão e um tratamento a fazer com recomendações a seguir, aconselhando-me o clínico que evitasse ruídos.

Ora, se tinha levado um problema à medicina, a fim de ser resolvido, afinal, trouxe dois: uma disfunção no canal auditivo, devidamente medicada; e ser capaz de conseguir evitar o ruído à minha volta. Conselho que não tem sido fácil de acatar, uma vez que só pela noite dentro consigo viver em silêncio e nem sempre.

Mesmo em casa, há o aspirador, o extrator de fumos e odores, a máquina de lavar o microondas cujos barulhinhos me prejudicam. Até o frigorífico a trabalhar produz um ruidozinho capaz de incomodar o ouvido mais sensível.

Então na rua, é barulho a toda a hora e momento quer seja, ele, produzido por carros e motorizadas, ou pelo burburinho humano que é próprio da azáfama citadina. São também ruidosas as portas que se batem, bem como certos toques de telemóvel em tom elevado, dada a surdez dos seus donos.

Mesmo a cumprimentarem-se, as pessoas fazem-no às risadas e em registo cada vez mais alto. E as crianças mais pequenas? Essas não choram, como as de antigamente, guincham e gritam, por tudo e por nada, em constantes birras.

Se, na cidade, procuro passar por ruas menos barulhentas, ao longo delas, ou em qualquer esquina, logo me deparo com um pedinte a tocar violino, trompete, violoncelo, viola e até bateria improvisada com testos latas e panelas. Mas não há muito por onde escolher, pois na avenida em frente soam os primeiros acordes de um ensaio num palco que promete, a qualquer momento, um concerto de arromba com música emitida a decibéis quase proibitivos para a minha – debilitada – capacidade auditiva.

Tento, então, refúgio numa das pastelarias citadinas. Mas, puro engano. Aí, me deparo com o tilintar das chávenas, pires, colheres, copos e o moinho do café a funcionar a todo o gás. E para engrossar o contingente ruidoso, surge o refrigerador das bebidas cujo motorzinho não pára de roncar, tal como os clientes que lá se encontram não param de falar.

Ainda se fossem diálogos cordatos e suaves, o pior é que cada um procura esganiçar a voz ao ponto de esticar ao máximo as suas cordas vocais para se fazer ouvir acima do outro. O que me faz tomar o café e, de imediato, zarpar.

A conclusão a que cheguei é que faço parte de uma civilização demasiado barulhenta. Por vezes dá vontade de chegar a esses locais e pedir: chiu! Pouco barulho. Porém, não me iriam ouvir porque, tal como eu, muita gente há que nem se apercebe de que está a ficar surda. Vivo no meio da poluição sonora e parece não haver nada que possa fazer contra ela. Ainda vá que não frequento discotecas ou similares, Aí, então, é que ficaria surdo de vez ou, quiçá, maluco.

Onde tenho encontrado alguma paz de espírito, para este meu padecimento, é nas igrejas. Aí, fora das horas de culto, passo um bom pedaço de tempo em recolhimento. Nota-se, ainda, um leve ruído mundano, de fundo, mas o silêncio é maior não deixando que o som agressivo trespasse os seus muros.

É lá, que me encontro comigo mesmo e com Deus. Pois quem está ali, como eu, não produz diálogo sonoro, apenas reza de olhos postos naquele a quem se dirigem as orações. Faz-me bem entrar, ajoelhar-me, benzer-me, sentar-me num dos bancos do templo e curtir um silêncio que para mim já é de ouro.



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