Espaço do Diário do Minho

A culpa foi da passadeira
14 Ago 2018
Luís Martins

Não sei se já aqui contei o incidente na cidade espanhola de Sevilha na primavera do ano em curso. Mesmo que tenha contado, o caso serve o objectivo. Foi assim: num determinada praça daquela cidade – estávamos a aproveitar um pequeno programa organizado e com guia –, com o movimento que havia, em certo momento o grupo dividiu-se em dois; uns seguiram um sentido, outros por uma via diferente.

Ao fim de algum tempo, os que se sentiram perdidos – não viam a guia – resolveram alertar esta do facto. Depois de inúmeros contactos – os primeiros foram completamente infrutíferos, porque a guia tinha o telemóvel sem som – a comunicação fez-se, a que se seguiu uma paragem dos companheiros de viagem bem encaminhados, enquanto a guia, desatenta ao grupo e com o equipamento móvel inoperacional – para que serve um telemóvel que não avisa convenientemente o seu portador das necessidades de outros? – veio ao encontro do pequeno grupo de turistas perdidos.

O meu amigo Vitorino Saraiva lá foi dizendo: a culpa foi da passadeira. Na verdade, no início do desencontro, uns atravessaram uma passadeira, outros a que fazia 90 graus com a primeira. A guia, que criticou ainda o grupo por não a seguir, ouviu as que não queria e para amenizar a coisa ofereceu aos ofendidos uns mapas turísticos de algumas cidades que nem sequer visitaríamos no périplo.

Moral da história: muitas vezes, com culpas próprias no cartório, endossamos o odioso das consequências para terceiros e até prometemos que de futuro haverá melhor atenção e se fará todo um programa para evitar incidentes idênticos. Outras vezes, há quem toque na ferida como o Vitorino.

Vários dias da última semana e alguns outros da que a antecedeu foram de tragédia no sul do país. Alguns quiseram aliviar o peso de consciência, afirmando que estavam atentos, que tudo foi feito, que havia meios – e muitos –, que a natureza é imprevisível e incontrolável, que havia uma estratégia que era boa e se recomendava, que nada falhou.

E que, apesar de tudo, como compete a quem superintende, seriam colocados de imediato apoios para minorar os prejuízos, etc… Muitos outros tocaram na ferida. Falta de cautela, de prevenção, ausência de medidas efectivas, descoordenação de meios e muitas outras desatenções graves.

Nunca foi pronunciado assim, mas aqueles que escalpelizaram as falhas e olhavam, atónitos, para o que os responsáveis operacionais e políticos diziam, talvez tivessem dito para si e para os que pensavam, como eles, que os culpados eram os mandantes e não outros: “estão a dizer que a culpa é da floresta; que se ela não existisse, não havia nada disto, não havia incêndios, estávamos todos a falar de como os membros do Governo e os responsáveis políticos passam o período estival”!

Na verdade, o que mais chocou foi a tragédia com que os afectados se viram confrontados, muitas vezes sem ajuda, outras vezes obrigados a abandonar o que de mais precioso tinham em termos materiais, sem que se lhes tivesse sido oferecida a segurança de bens – não estavam lá os meios para isso! – e, pelo menos uma vez, se ter visto alguém a ser algemado tal e qual um criminoso!

Chocou assistir ao fogo a avançar em direcção às populações e os meios dos bombeiros a aguardar instruções – não sei se por falta se comunicação ou por estratégia de deixar queimar até que o problema se resolva por si –, com as pessoas aflitas e desesperadas! Ouvi falar em “show off” dos responsáveis do país, que também senti!

Chocou também o excessivo e reiterado verbo em realçar “as boas notícias” e outras expressões de satisfação, como se os resultados – 27000 hectares ardidos e dezenas de primeiras habitações dizimadas – fossem positivos! E as consequências morais daqueles que perderem alguma coisa de significativo ou mesmo tudo? Haverá algum apoio que faça esquecer o que aconteceu?

As populações precisam de confiar, mas ainda não se sentem seguras. Percebeu-se isso, como de outras vezes. Mas, mesmo se confiarmos, isso não nos deve impedir de fazer o que temos de fazer. O Vitorino mexeu na ferida. E seguir os bons exemplos é sempre aconselhável.



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