Espaço do Diário do Minho

As 7 “maravilhas” à lista
13 Ago 2018
Narciso Mendes

A riqueza gastronómica de Braga não se pode confinar a um simples, embora excelente, prato de bacalhau à Narcisa. E muito menos a uma mesa onde nada conste em termos de entradas e sobremesas.

E foi isso o que sucedeu no programa televisivo “As Sete Maravilhas à Mesa”, onde o cardápio bracarense foi singelo. Apesar do ator Almeno Gonçalves ter procurado valorizar a mão que D. Eusébia tinha para a cozinha, a cujos comensais da arte do espetáculo, sempre que vinham ao Theatro Circo, servia com prazer e esmero.

Então o seu cabritinho com batatas novas, assados no forno, eram de comer e chorar por mais, para além do seu pudim magnífico. É que a nossa Bracara Augusta tem muitas mais opções degustativas, como as famosas papas de sarrabulho com rojões, o arroz de pato à antiga, o cozido, o caldo verde, etc.

Ora, como lá diz o povo – e com razão – até no melhor dos panos cai a nódoa e, no caso acima referido, ela ficou bem visível aos olhos de quem viu o programa. Se bem que não passe de um entretenimento e o que lá vai, lá vai. Agora, a lista das sete nódoas que mancham cá o nosso burgo, essas sim, são “maravilhas” que não gostaríamos de exibir a quem nos visita, as quais em nada abonam a favor da beleza da nossa cidade.

Lista, essa, que contempla o nó de Infias, pois só um cego é que não vê o que ali se passa, diariamente, com o trânsito caótico a registar-se, sobretudo em horas de ponta. Uma “maravilha” incompatível com os carros do século XXI, bem como com os autocarros que têm de cumprir horários. Já para não falar das ambulâncias que se veem gregas para chegarem ao hospital ou socorrerem um doente, no seu domicílio, com um qualquer problema grave de saúde. São vários os nós, entroncamentos e cruzamentos que urge, como lá diz o GPS, serem recalculados.

A seguir, temos aquele escarro do antigo Tribunal. Uma verdadeira nódoa inconcebível, nos dias de hoje, para uma cidade que se quer inteligente, mas cuja lucidez de quem a governa – ao fim de alguma décadas em ruínas – não sabe o que lhe há-de fazer. O verdadeiro símbolo do desleixo e do deixa andar que atrás vem festa. Não esquecendo que foi um edifício histórico da vida da cidade, onde se julgaram inúmeros e importantes casos decididos por ilustres juízes e defendidos por insignes causídicos.

O três da lista é a antiga Escola Comercial, na Rua do Castelo, ao pé de um monumento, completamente desolada. À espera que lhe seja dado proveito. Um enorme edifício, cujo préstimo não foi, até à presente data, devidamente, aproveitado. E quem dera a muitas cidades um espaço daqueles, de enorme serventia e bela arquitetura. Porém, é a “maravilha” do vazio, sem alma nem vida, a degradar-se lentamente.

Em quarto lugar, olhamos para o Campo da Vinha e o que vemos? O retrato fiel das ideias de mau gosto que imperaram num regime que governou a cidade dos Arcebispos durante cerca de quatro décadas. A tristeza de uma praça que poderia ter sido das melhores da Europa, tanto em grandeza, como em beleza. Perspetivas de remodelação? Não se vê génio capaz.

Desta lista, também faz parte a nódoa que é para a cidade o rio Este. Para onde os detritos de toda a espécie são despejados, sem que alguém tenha a coragem de reprimir os seus autores, os quais lá continuam protegidos pelos quilómetros que o seu curso percorre. Enfim, uma imbecilidade a todo o pano.

Não menos negra, da lista, é a Central de Camionagem. Um equipamento “maravilhosamente” obsoleto, há vários anos, mas que ninguém está interessado em deitar-lhe a mão. Uma vez que lhe foram cortadas as asas e o remédio é, ao que me é dado observar, ter de ficar sem poder voar ad aeternum.

Em sétima posição, temos aquilo que nunca foi definido como rua, largo ou praceta, mas que serve de prostíbulo noturno. Trata-se do espaço que vai da Rua do Carmo – local da antiga sede do PCP – à Rua dos Chãos. Sendo, esta, a última “maravilha” de uma lista de sete pontos negros, à espera que se decidam.



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