Espaço do Diário do Minho

O corpo fala quando as palavras mentem
12 Ago 2018
M. Ribeiro Fernandes

1.Que nem sempre as pessoas falam verdade, apesar de toda a gente dizer que se deve fazer, isso já se sabia; o que talvez não se saiba é que se mente mais do que se imagina… Feldman, da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, depois de estudar 121 casais em conversação com uma terceira pessoa, chegou à conclusão que 62% dizia, em média, duas a três mentiras a cada 10 minutos; e James Patterson entrevistou mais de 2000 americanos e concluiu que 91% mentia de forma habitual, tanto em casa como no trabalho.

Pois é, o problema está em descobrir quando nos estão a mentir, para nos sabermos proteger. Às vezes, nem é assim tão difícil; mas há pessoas que parece que se sentem protegidas por quem os engana em nome do poder e só mais tarde é que se dão conta disso e ficam muito zangadas consigo mesmas. A respeito do imperativo de consciência de se dever falar verdade, há uma anedota muito engraçada que diz assim: 

Um dia, a mãe conversando com o filho, diz-lhe:

– Joãozinho, não te esqueças que nunca se deve mentir…

– Tá bem, mamã.

– Olha, agora fica aí a brincar um bocadinho enquanto eu vou para o escritório, porque tenho um trabalho urgente para fazer e não queria que ninguém me interrompesse, senão não consigo fazê-lo. Por isso, se alguém chamar por mim, diz-lhe que eu não estou…

Pergunta: a mãe foi ou não coerente com o conselho que deu ao filho de que não se devia mentir? Foi. Seguiu os conselhos da Ética que recomenda que não se deve mentir, mas que, em circunstâncias especiais, se pode usar a chamada restrição mental, isto é, evitar dizer aquilo que não convém ser dito: não é mentir, é apenas omitir essa parte que não convém ser dita. No caso concreto, a mãe realmente estava em casa, só não estava para poder atender alguém… 

Há uma outra anedota, sobre o mesmo assunto, que leva a sinceridade ao extremo da ingenuidade: O patrão chama o empregado e diz-lhe que, durante algum tempo ia estar ocupado e que não podia atender ninguém. Entretanto, chega um cliente e diz ao empregado que quer falar com o patrão. E o empregado respondeu imediatamente: o patrão manda dizer que não está… 

Quer dizer, o empregado esqueceu-se que a sinceridade é uma virtude, mas que tudo na vida precisa do equilíbrio que a prudência recomenda. É o ideal apontado pela sabedoria da Bíblia: sede simples como uma criança, mas prudentes como uma serpente… Porque há circunstâncias na vida em que, para evitar males maiores, se não deve dizer aquilo que não convém ser dito. Caso contrário, como dizia Allan Pease, se fôssemos dizer abertamente tudo o que sentimos sobre os outros, corríamos o risco de acabar sozinhos e abandonados…ou então ir parar à prisão ou a um hospital psiquiátrico, tidos como loucos… 

2. Como descobrir, então, quando nos estão a mentir? Há três maneiras de o descobrir: ou pela incoerência do que diz, ou se for apanhado em contradição, ou através da linguagem corporal que acompanha o que as palavras dizem e que funciona automaticamente. Pode-se controlar os gestos conscientes, mas é muito difícil controlar os gestos e expressões não conscientes. É aí que o corpo fala quando as palavras mentem… A menos que a pessoa seja capaz de representar muito bem (o teatro da política costuma ser fértil nesse campo…), mas mesmo assim é difícil.

Freud deixou-nos um aviso memorável a esse respeito: “Aquele que tiver olhos para ver e ouvidos para ouvir deve convencer-se de que nenhum ser mortal pode guardar um segredo. Se seus lábios estão silenciosos, falará com a ponta dos dedos. As denúncias filtram-se por todos os poros”… 

3. Há estudos curiosos sobre a linguagem corporal, quer sobre gestos que todos nós conhecemos do dia-a-dia, quer sobre determinados gestos que são universais e se usam em diversas culturas. Por exemplo, tapar o rosto com as mãos quando se diz alguma coisa, pode significar que a pessoa está a mentir. Sabe-se que, pelo menos até aos 5 anos, as crianças usam habitualmente o gesto de tapar a boca com as mãos quando dizem uma mentira.

É uma forma instintiva de negar aquilo que disseram. Mais tarde, a partir da adolescência, deixam de tapar a boca com as mãos, mas levam a mão à boca ou às imediações da boca em situações dessas. Muitos adultos conservam um remanescente desse gesto de tapar a boca com as mãos quando, para dizer que não estavam a mentir, levam a mão à boca, como que dizendo: estão a ver, eu não estou a mentir… Mas, estavam mesmo… O rosto é a parte do corpo mais usada para tentar encobrir uma mentira. Mas há muitas outras partes do corpo. Falaremos disso a seguir. 

(Nota: o autor não escreve de acordo com o novo Acordo Ortográfico)



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