Espaço do Diário do Minho

Ai se as armas falassem…!
6 Ago 2018
Narciso Mendes

Segundo uma reportagem editada pelo semanário “Expresso” de 1987, a guerra do Golfo consumia, nessa altura, 75% do armamento português. Mas dizia mais: o Estado português não autorizou nem autorizará o trânsito nos seus aeroportos de quaisquer aviões militares – seja qual for a sua nacionalidade – transportando armas para o Irão. Seis anos depois desta declaração, imitida em 1980, o Governo de então tinha já autorizado a entrega de 8559 toneladas de armas e munições para as Forças Armadas iranianas, arrecadando uma maquia de 15 milhões de contos.

E pelo aeroporto de Lisboa terá passado um número considerável de aviões transportando clandestinamente armamento sofisticado norte-americano. Armas de guerra, que, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros, da época, considerou sersem relevância militar nem financeira. Mas não só. Em 85/86, exportávamos para Damasco, na Síria, algumas toneladas de material de guerra, embora a vontade fosse não o fazer, mas falando mais alto a receita de 2,6 milhões de contos.

Ora, já por essa altura corriam rumores de que o tráfico das armas era de tal forma intenso que não havia movimento armado clandestino que as não tivesse. E se por um lado comprar armas aos Estados fornecedores era necessária uma enorme burocracia, por outro adquiri-las no chamado mercado-negro não só era muito mais barato, como mais fácil a sua compra.

Daí, o ter aparecido em Londres o famoso lote de armamento português composto por metralhadoras G-3, granadas de morteiro e artilharia a preços muito inferiores aos praticados no mercado nacional. Lote esse que seria adquirido por negociantes estrangeiros tendo por destino o Irão. Onde o mercado dos ayatollahs era uma excelente fonte de receita.

Em Portugal já não era novidade para ninguém que as armas escapavam à vigilância não só das autoridades civis como das militares. Pois se o segredo, como alma do negócio era grande, o silêncio à volta de tudo isto era, ainda, maior. E de vez em quando, lá se via alguma arraia-miúda apanhada a traficar armas, a fim de tapar os olhos ao povo.

Recordo aqui um dos amigos do PS nacional, um tal Edmundo Pedro que já em 1978 se dedicava à venda de armamento conjuntamente com eletrodomésticos. Destino? Alguns generais do exército português, segundo ele. Em que o negócio do material elétrico e eletrónico, o chamado “Tecno-Bazar”, apenas servia de fachada para outros voos do comércio bélico, não só nacional como estrangeiro.

Também aqui, como atualmente acontece com o desaparecimento das armas dos paióis de Tancos, a Polícia do Exército entrava em conflito, nas investigações, com a Guarda-Fiscal e a Polícia Judiciária civil. É que não sabiam se as armas, com o número riscado, eram de contrabando, ou se eram as que faltavam na recolha das que haviam sido distribuídas na madrugada de 26 de novembro de 1975.

Tudo eram nublosas à volta da investigação e já havia quem avançasse: o alto contrabando parece estar protegido por personalidades mais ou menos bem colocadas em setores-chave da administração pública, o que dá a entender que os seus patrões vencem as autoridades fiscais.

Não é, pois, por acaso que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, está à espera que de Tancos, de onde desapareceu o material de guerra, que depois veio a ser encontrado na Chamusca, alguém diga o que sabe acerca do fenómeno.

Ai se as armas falassem, talvez até lhe contassem como se processa o seu negócio e o fizessem recordar-se dos tempos em que foi um dos contactos com uma empresa intermediária de impor-expor de armas, a “Norte Importadora”, quando pertencia ao executivo da AD, em 82/83, segundo o fora noticiado.

Mas isso já lá vai. Agora, o que Marcelo pretende, como Comandante Supremo das Forças Armadas, é ouvir da boca dos investigadores e da do ministro da Defesa se esta história do armamento de guerra foi, ou não, um roubo por encomenda com o conluio de alguns militares.



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