Espaço do Diário do Minho

O Estado, a Família e o CDS
2 Ago 2018
Mário Cunha Reis

Lembro-me bem do dia em que o CDS, deixando-se influenciar pela agenda “progressista” mundializada, de inspiração marxista, a interpretou como dando corpo aos imparáveis “ventos da mudança”.

Lembro-me com quem estava, onde estava e das reacções de espanto dos presentes. Nesse dia, em 2012, tinha sido votada na Assembleia da República a proposta de lei do PS sobre a co-adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo. Teve o voto favorável de um deputado do CDS e a abstenção de um outro.

Todos tínhamos a noção de que era apenas um primeiro passo, para mudanças mais profundas, que vieram e continuam a concretizar-se. Era como uma brecha aberta numa das paredes da muralha, em breve, destinada a ruir.

Lembro-me de um outro dia, em 2015, em que tinham sido votados os projectos de lei sobre a adopção de crianças por pessoas do mesmo sexo, aprovados com os votos dos partidos de esquerda, incluindo o do deputado do PAN e de 19 deputados do PSD. Lembro-me também que nesta votação duas deputadas do CDS se abstiveram e que um outro deputado e presidente do CDS, não estava na sala no momento da votação. Diz-se que “em política nada acontece por acaso”. Acredito que assim é.

Está em curso, desde há décadas, um insidioso ataque à família que se faz a pretexto da defesa de direitos humanos e das minorias ditas “oprimidas”. Ao valor e direito fundamental de que dependem todos os restantes direitos – a vida humana – e ao valor de família natural, geradora de vida e garante da sua preservação, um dos pilares fundamentais da nossa civilização, da liberdade de pensamento e de expressão, da liberdade religiosa e da liberdade de educação dos filhos, que decorrem da anterior, tem vindo a sobrepor-se outros valores como o da liberdade de escolha, de liberdade de expressão da identidade sexual e da auto-determinação de identidade de “género”, do direito a não “sentir-se ofendido” pela liberdade de expressão alheia, ou do direito do Estado a interferir, sobrepor-se ou substituir-se às famílias na educação dos seus filhos.

Todos estes valores ditos “progressistas” que deveriam estar subordinados aos valores fundamentais, e não sobrepor-se ou substituir-se a estes, têm vindo a ser adoptados e promovidos por influentes organizações internacionais, poderosas organizações não governamentais e Estados, influenciados ou coagidos por estas, um pouco por todo o mundo.

Portugal não tem escapado à escalada desta agenda, com o lançamento dos temas “fracturantes”, de forma persistente, sucessiva e progressiva. Neste sentido, todos os partidos políticos com representação parlamentar têm de alguma forma favorecido esta agenda, seja lançando iniciativas que têm surgido da área das esquerdas, seja com a colaboração ou cooperação de social-democratas, seja pela falta de oposição clara, esclarecida, afirmativa, comprometida e destemida dos demais.

A política faz-se de verdade, na defesa de valores e princípios e rejeitando a manipulação da ditadura do politicamente correcto. No CDS, a política faz-se e deve fazer-se ao serviço da dignidade da vida da pessoa humana, rejeitando a imposição de modelos de sociedade que procuram subverter a própria natureza humana.

Entendamo-nos. A família natural, modelo e estrutura base da nossa civilização, não é outra senão a que é formada por pai, mãe e filhos. Aquela a que hoje, com algum desdém, se chama de “família tradicional”, por contraponto àquelas que não são assim compostas, por liberdade de opção ou pelas contingências da vida.

Esse é o modelo de família defendida pelos cristãos, pelos cristãos democratas e pelos democrata-cristãos, e claramente não defendida pelos liberais.

Nessa perspectiva, essa é a família que do ponto de vista do CDS deve ser defendida e fomentada pelo Estado, enquanto servidor da sociedade e do interesse comum. Fomentar qualquer outro modelo de família, põe em causa a estrutura da nossa civilização e promove, entre outras calamidades a redução da natalidade. Quanto aos afectos, fundamentais para o desenvolvimento da pessoa humana, estarão presentes, certamente, nas famílias, ainda que não-tradicionais. Aí, o Estado nada pode, nem deve, interferir.

Cada pessoa, maior de idade, tem a opção de organizar a sua vida e viver com quem entender (nada nem ninguém se pode ou deve opor), pode constituir vínculo de união civil com uma (apenas uma) outra pessoa (apenas pessoa humana), com a qual não tenha vínculo de parentesco (descendente, ascendente ou colateral), que seja igualmente maior de idade (vedado a menores) e de sexo oposto, sendo que, a legislação actual, permite-o entre pessoas do mesmo sexo, o que subverte o modelo dito “tradicional”.

À promoção de qualquer modelo alternativo de família, respeitando plenamente a sua base doutrinária, um democrata-cristão não pode senão opor-se.

O autor escreve em português correcto, não reconhecendo o AO 1990.



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