Espaço do Diário do Minho

Gastos médios de férias
30 Jul 2018
António Sílvio Couto

Segundo dados duma entidade de observação de comportamentos, em média, os portugueses tencionam gastar 667 euros em férias, compreendendo os meses de julho a setembro… deste ano.

Comparativamente aos anos anteriores nota-se um abaixamento significativo. Eis os dados disponíveis sobre os gastos dos portugueses em férias do verão: 2017 – 950 euros; 2016 – 884 euros; 2015 – 706 euros; 2014 – 767 euros…

Desde logo poderemos e devermos questionar qual o significado mais profundo desta quebra de valores gastos com férias. Será um reflexo de que nem tudo vai tão bem como nos dizem os governantes? Será uma maior consciencialização de que é precisa moderação nos gastos, pois há outras prioridades? Já aprendemos a moderar-nos nos gastos ou ainda estamos a criar hábitos de sensatez e bom senso? 

= Diante destes dados simples e talvez nem tão significativos de imediato, teremos de aprender a conviver com a “bolha” do turismo com que nos têm vindo a seduzir. O “boom” de procura do nosso país poderá tornar-se um “bluff” se outras condicionantes forem introduzidas no sistema vigente de economia. Os vários tentáculos com que o fenómeno do turismo tem sido servido poderão revelar-se insuficientes para suportar os enganos com que certos dirigentes – políticos, económicos, sociais e culturais – se vão exibindo por agora. Com efeito, uma sociedade suportada por uma economia da diversão não irá longe e com facilidade entrará em crise se alguns fatores – segurança, confiança, hospitalidade, educação cívica – forem introduzidos com maior ou menor vulnerabilidade. Torna-se perigoso “colocar todos os ovos no mesmo cesto” – diz-se em certas circunstâncias. Ora, isto mesmo poderemos dizer sobre esta questão do turismo, pois a opção de quase tudo canalizar – investimentos, obras, iniciativas económicas e culturais – para o turismo é cada vez mais perigoso, desde o âmbito humano até às razões ambientais. Dá a impressão que se quis fazer do turismo um espaço fácil e rápido de ganhar dinheiro, mesmo que à custa dalguma descaraterização do nosso ser identitário mais profundo…

= À mentalidade do período de férias – quase obrigatório e sagrado – temos vindo a assistir também a uma espécie de endeusamento desse tempo que devia ser de descanso, como se isso fosse algo que “dá estatuto” à pessoa pelo local onde – ou donde se mostra… na vivência faceboquiana – alguém vai de férias. Locais de grande procura têm vindo a tornar-se alvo de excessivo movimento, onde de descanso pouco ou nada fica. Com certa frequência se quer dar “boa” impressão na vizinhança, segundo o (pretenso) lugar de férias… até pela t-shirt exibida, querendo dizer por onde se andou… real ou virtualmente. Quantas vezes imagens, posts e outras informações, através do facebook, fazem das férias um estendal de falta de senso, levando as pessoas a cometerem erros que podem ser fatais para a segurança das próprias casas nesse período de tempo. Quantas vezes seria bem mais benéfico que se cultivasse a discrição e não tanto a ostentação, garantindo às pessoas que sejam vistas mais pelo que são do que por aquilo que pretendem dar impressão que têm ou querem mostrar.

= Mesmo de forma simplista os números aduzidos aos gastos em férias projetados para este ano, significam mais do que o “ordenado mínimo nacional” estipulado por lei. Estes dados nivelam todos os que pretensamente façam ou não férias, mas, quantos outros, gastarão muito para além daqueles números, tendo ainda em conta quem não chega àquela bitola. Assim o quadro de qualidade da nossa sociedade tem ainda de evoluir mais para a justiça, onde cada qual possa usufruir dos seus direitos, mas sem ofender iguais condições de outros concidadãos. Efetivamente é neste ponto que temos muito a caminhar mais pela igualdade que não tenha as mãos voltadas para dentro, mas que esteja capaz de viver em solidariedade com respeito e sensatez… Esta como qualidade humana, infelizmente, nem sempre é tida na devida conta, parecendo, em muitos casos, que tem estado em saldos… ao longo de todo o ano.

A quem possa ter (ou estar) férias, boas férias. A quem as ainda não teve (ou não terá), que o trabalho não subjugue a liberdade pessoal e familiar.



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