Espaço do Diário do Minho

Diferenças entre a figura materna e a figura paterna vistas por uma criança de 5 anos
29 Jul 2018
M. Ribeiro Fernandes

1.O olhar de uma criança é o que melhor capta a verdade do coração humano, apesar dos condicionamentos culturais do processo educativo. A história é real. E o protagonista é uma criança de 5 anos que foi passar uns dias de férias com os Avós (aproveito para a dedicar aos Avós, cujo dia se comemorou no dia 26). Na véspera de regressar, fez dois desenhos para oferecer aos pais, quando chegasse a casa, um para a mãe e outro para o pai. Dois corações, com pormenores diferentes: o do pai mais simples e o da mãe com flores e uma figura feminina em fundo. E pediu à avó para escrever em cada folha do desenho uma dedicatória, porque ainda não era capaz de o fazer sozinho. Depois de pensar uns instantes, ditou as seguintes dedicatórias:

1.1. Querida Mãe, eu gostei de estar de férias no Algarve, mas ainda gosto mais de estar com a mãe. Ao almoço, comi peixe muito bom. Também dei muitos mergulhos no mar. 

É muito bom estar com a mãe e com a família toda. Beijinhos para a Mãe!

1.2. Olá, Pai! Eu gosto muito do Pai. Estar em casa com o Pai também é bom. Eu gosto de ir com o Pai passear, a pé e com a família toda. Quando tinha 3 anos, gostava de ir passear a pé com o Pai e o Pai dava-me gelados. Beijinhos e abraços (e muitos palhaços…)!

2. A avó perguntou-lhe porque queria que escrevesse “beijinhos e abraços e muitos palhaços…” na dedicatória para o pai e ele, rindo-se, respondeu que o pai costuma dizer isso… e ri-se muito quando o faz… então, para o pai se rir, também lhe vou dizer agora… (saber agradar, uma preciosa habilidade de inteligência emocional a que chamamos simpatia e que tem um papel muito importante no convívio social). Este pequeno texto revela uma sabedoria natural, fruto da intuição, no modo como expressa as diferenças entre a figura materna e a figura paterna. Para a figura materna, usa expressões verbais de intimidade afectiva e de intensidade de carinho (“querida mãe”), enquanto para a figura paterna usa a expressão de um amigo especial de quem gosta e que o protege (“olá, pai”). Ambas as figuras são tratadas com afectividade, mas a tonalidade da relação com a figura materna situa-se mais na dimensão do coração, do afecto, do carinho, da compreensão, do acolhimento, enquanto a do pai se situa mais na dimensão da amizade, da gratidão, do respeito. Resumindo, gosta-se da mãe e do pai, mas a mãe ama-se e o pai respeita-se. É esta percepção existencial da relação afectiva íntima que cria vínculos profundos e estruturantes para a vida. 

Se a figura materna não for capaz de estabelecer uma relação de intimidade com o filho, perde seguramente a alma que a caracteriza: ficará a atracção da vinculação biológica materna, mas pode falhar a relação afectiva e criadora materna, dando origem à controversa figura da mãe simultaneamente amada e rejeitada. Uma figura materna que privilegie uma relação de autoridade e disciplina com os filhos, deixa de ser a mãe que a criança espera dela. E a criança sentir-se-á carente de afecto. É essa suave energia de afecto maternal que cura as feridas do coração no dia a dia e que lhe dá força para ser mais forte no amanhã. Sem esse apoio afectivo teria mais dificuldade de superar o esforço do confronto diário com a realidade. 

3. É um alerta para as mães que são tentadas a comportar-se mais como figuras que pensam que resolvem todos os problemas da educação com o recurso à disciplina, ao “pôr de castigo”, como na malfadada cena da cadeira dos castigos da supernnany, na SIC. Isto não quer dizer que o afecto não tenha o seu modo próprio de ensinar regras de convivência e disciplina. Tem. Pode nem sempre ser tão rápido na obtenção de resultados visíveis como a imposição, mas esta desaparece e aquela é a única que produz uma vinculação duradoira. 

No caso da figura paterna, a sua força está associada à amizade primitiva com a figura materna que envolve o filho, mas também ao comportamento de protecção e modo de presença na acção. É no clima de confiança e de acção que se aprende a imitar e a cooperar. A verdadeira autoridade não está na imposição, mas no exemplo da acção. 

É assim: quem não tiver uma figura materna e uma figura paterna unidas como uma unidade básica crescerá sem uma parte de si mesmo e terá mais dificuldade de se adaptar socialmente e de ser feliz na vida. Muitos dos comportamentos perturbados que se observam nos adultos têm origem aqui.

(O autor não escreve de acordo com o chamado Acordo Ortográfico) 



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