Espaço do Diário do Minho

Nossa Senhora no coração dos literatos
28 Jul 2018
Salvador de Sousa

Já vimos, em crónicas anteriores, que muitos intelectuais, mesmo alguns revolucionários das letras, nunca se desviaram do fervor à Virgem Maria, conservando nela uma crença sempre mais forte, resistindo às correntes antirreligiosas europeias da Idade Moderna. 

As correntes do racionalismo e do iluminismo foram bastante demolidoras para a doutrina da Igreja, embora, como já disse, a maioria dos pensadores manteve-se fiel a Deus e a Santa Maria de Portugal e nem a doutrina das invasões francesas conseguiu apagar o seu nome.

Descartes (1596-1650), por exemplo, um dos primeiros racionalistas famosos da Idade Moderna, com formação jesuítica, soube, com os seus quatro pensamentos fulcrais (duvido; penso, logo existo; Deus existe; o mundo existe) prova a existência de Deus com a sua própria razão. A sua dúvida era o caminho para a verdade e dizia que só um ser perfeito podia garantir toda a verdade e, afirmava: eu que existo, pensando no perfeito e na sua essência, chego à existência de Deus que existe como princípio e garante de toda a verdade: «a causa que não pode ser causada só pode ser Deus… Conclui Deus a partir de Deus», mas estas suas ideias foram viciadas por outros, sobretudo em França, transformando «a filosofia da dúvida metódica numa metódica de antirreligiosidade», influenciando muitos crentes para o caminho do ceticismo, inclusivamente a nobreza, dando origem à revolução.

Para combater essas ideias, funda-se, em 1756, a Arcádia Lusitana, zelando pela pureza da nossa língua, combatendo os estrangeirismos e tantos barbarismos presunçosos e, no meio destas correntes de irreligiosidade que brotavam de todos os lados, os seus fundadores proclamaram Nossa Senhora como sua guia, adotando, como emblema, o Lírio, símbolo da Conceição Virginal de Maria. Eis alguns dos seus nomes: António Dinis da Cruz e Silva (1731-1799) recitou, numa conferência pública, uma ode, louvando a Senhora da Conceição «…Oh Céus! Oh nunca vista maravilha!/Uma pura mulher toda vestida/Do Sol brilhante,/De lúcidas estrelas coroada,/ Pisando a branca lua, é quem espalha/ A luz pura e formosa…»; Correia Garção, na comemoração do segundo ano da fundação da Arcádia Lusitana, dizia no seu discurso: «Quem será tão bárbaro que, olhando para os progressos da Arcádia, não reconheça que só a força de tão alta proteção podia adiantá-los, ou para melhor dizer, coroá-los com tanta honra e glória?».

Em 1790, é fundada a Nova Arcádia, numa altura em que as doutrinas divulgadas pela “Enciclopédia” (obra criada para a divulgação da ideias do movimento iluminista da segunda metade do século XVIII) e os ideais da revolução francesa eram praticamente conhecidos pelos literatos o que veio transtornar os ideais anteriormente traçados, marcando, bastante, o declínio da Igreja e o crescimento do secularismo. Muitos dos seus seguidores, apesar dos desvios à doutrina tradicional, conservaram a devoção a Nossa Senhora, dando como exemplo os seguintes: Maximino Torres imbuído pelas novas ideias revolucionárias, propagandeou-as, acabando por ser acusado de jacobino (jacobinismo – associação fundada em Paris, em 1789, sendo um dos seus objetivos lutar contra a realeza e contra a Igreja), terminando a sua vida na prisão, mas, mesmo assim, Maximino Torres compunha uma “Cantata Pastoril”, um diálogo entre pastoras e o coro, para ser apresentada numa das sessões da Nova Arcádia, no dia dedicado à Imaculada Conceição: «Dulce – Vês que imenso clarão sobe às estrelas, afogueando os ares! (…) Coro – Pastoras do Tejo, louvai à porfia a Virgem Maria! (…)» Bocage (1765-1805) nasceu em Setúbal, com uma vida boémia e desregrada, tornou-se um grande poeta do século XVIII. A sua poesia, individualista e pessoal, seria como que uma introdução à poesia romântica do século XIX. Foi acusado de satirizar o clero e a nobreza, sendo preso pela inquisição, mas, apesar de tudo isso, conserva e divulga, através da sua escrita, uma devoção grande à Virgem Imaculada. A cada momento da sua poesia implora a proteção de Nossa Senhora, como que arrependido pela sua vida pecaminosa: «Ah, dos teus olhos um volver piedoso/ desarme, ó Virgem bela, o justiçoso…// Apaga o raio que na mão divina/ A prumo sobre a fronte chameja:/ – A quem Te invoca, Teu favor proteja.»

Principal fonte destas crónicas: “Fátima Altar do Mundo”, 3 volumes, sob a direção literária do Dr. João Ameal da Academia Portuguesa da História; direção artística de Luís Reis Santos, historiador de arte e diretor do Museu Machado de Castro, Coimbra; realização e propriedade de Augusto Dias Arnaut e Gabriel Ferreira Marques, editada pela Ocidental Editora, Porto, em 1953.



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