Espaço do Diário do Minho

As comadres
23 Jul 2018
paulo Fafe

Encontro-as em todas as esquinas e nas passagens estreitas. Estacionam por largos tempos não se dando fé de que estorvam a passagem e perturbam a normal fluidez do trânsito pedestre. Nada lhes importa o civismo, o que verdadeiramente lhes faz conta é saber das últimas novidades da vizinha, se berra com o marido, se a filha já está divorciada ou se ainda namora com o careca da mercearia. Não são uma praga, são uma epidemia que se instalou como doença crónica e dá sinais de resistência. Também estão nos cafés em mesas previamente guardadas e esperam umas pelas outras embora a treta comece no ajuntamento de duas. Conforme vão chegando mais o âmbito das novidades de última hora alarga-se como elástico repuxado? Quem são aquelas? São as filhas do correeiro a dar-se ares de grandes senhoras. Não se lembram que o pai ainda cheira a cabedal mal curtido. Sabem até ao pormenor as peripécias das férias de todos; há quem diz que a vizinha de cima pediu um empréstimo para mudar de automóvel. Nada lhes escapa. Quando o assunto parece esgotado, ou prestes a ficar sem assunto, olham para quem passa e criticam a moça com o umbigo à mostra, o rapaz com brinco na orelha e a casada que deveria ter mais recato na altura da saia ou a viúva que depressa enxugou as lágrimas da viuvez. Sabes quem são aquelas, aquelas ali à ponta da barbearia, vestidas que nem passagem de modelos? E sem dar tempo ou espaço a mais nada acrescenta: são as filhas do trolha que se fez empreiteiro; em tom de desdém acrescenta: Ó filhas, ouvi-las falar é um horror. Então a presumida da mais velha a falar francês é melhor que ir ao circo e ver os palhaços. Esta entrou e a mesma crítica levantou-se, beijou-a numa e noutra face e deu-lhe um abraço tão apertado tão do tamanho duma hipocrisia farisaica que mais parecia uma sinceridade do que uma velhacaria de comadre.  Ninguém se levanta porque se o faz as restantes cortam-lhe na casaca, como esta: sabes por que razão a Emília critica as das solas? Porque a mais nova roubou o namorado à filha. Nisto passa no radar deste arame farpado um farmacêutico. É um médico autêntico, disse uma das comadres. Outro dia – e conta uma história de receituário farmacêutico que mais parece um tratado médico. Então começa a nomenclatura medicamentosa a reinar nesta assembleia de comadres. Se uma toma dois remédios e disso se queixa, logo a outra toma quatro e se lamenta e a terceira engole seis e a outra até já teve alturas de deglutir duma só vez oito e ganhou; todas ficam avisadas que para vencer este número terão que falar em último, se não há sempre uma que engole mais um comprimido que a outra. E sabem o nome dos analgésicos, dos antibióticos, do forro para o estômago, dos que fazem o sangue ficar fino, dos que ajudam a dormir, dos que dominam o colesterol, o bom, o mau, o médio, e falam da tiróide, da tensão alta, das mínimas e dos chás que a controla. Se uma foi operada, então conta em requintes de dor extrema o inferno por que passou. Se quiser ouvi-las, finja que está a ler o jornal numa mesa ao lado e verá como nada disto é um exagero. Assim se entretêm uma tarde inteira a troco de um café por dia, e contra isso nada tem o cronista. Mas, minhas senhoras, quando saírem não fiquem juntinhas a obstruir os passeios porque as pessoas precisam de passar.



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