Espaço do Diário do Minho

Hino de louvor aos avós
18 Jul 2018
Maria Helena Paes

Foi criado, diga-se na realidade, muito justamente o Dia dos Avós, chamando assim a atenção para a importância do papel que os avós representam positivamente na vida das crianças e consequentemente para o bem das famílias e, num sentido mais amplo, para o bem-estar da humanidade. Que o digam as crianças a quem os avós, muitas vezes, com algum grau de dificuldade, mas sobretudo com muito amor, empenho, dedicam tempo e carinho. Transmitem a história da família, as suas vivências e cultura, com grande disponibilidade para brincarem, levarem e irem buscar à escola, ajudarem nos trabalhos escolares, ouvir as aventuras e peripécias dos netos, levarem-nos para férias, ajudarem os filhos nalgum trabalho doméstico e muitas vezes mesmo financeiramente, ou seja, recriarem-lhes a esperança no futuro. Mas questiono, se será que são reconhecidos? Há algum tempo, fui acompanhar uma senhora idosa minha amiga, que deu uma queda na rua, tendo sido levada para um hospital. Quando soube da situação, já que vivia só, fui buscá-la, tendo-a reencaminhado, depois de falar com os serviços sociais e encontrado um local para recuperar, neste caso uma residência assistida no sentido de aí recuperar da queda. Para a ajudar acompanhei-a numa ambulância. Durante esta viagem estabeleci diálogo com a técnica de saúde que nos acompanhava e que pensava que a minha amiga era minha mãe. Foi-me confidenciado por esta técnica de saúde que fazia o acompanhamento, que antigamente, quando usufruía da companhia e apoio dos seus pais, a sua vida e do marido era então, bem mais facilitada e descansada. Com uma enorme saudade partilhou essas vivências. Os seus dois filhos ainda pequenos ficavam em sua casa. Ia buscá-los ou não, dependendo dos seus horários laborais que eram por turnos. Quando saia mais tarde ficavam em casa dos avós que de manhã os levavam ao infantário. Quando permitia irem buscá-los, vinham já arranjados, com o banho tomado, de pijama e já jantados. Nem se preocupava muito com o período de férias; as datas festivas tinham lugar em sua casa; na doença, havia um apoio. Uma lágrima deslizou pelo seu rosto com uma saudade enorme não só dos pais mas da sua vida de então, com menos preocupações e mais apoios a vários níveis. Faziam-lhe tanta falta e tinham partido tão precocemente! Hoje em dia era tudo tão mais difícil. O ordenado de ambos mal dava para cobrirem as despesas com a educação, o prolongamento dos horários dos A.T.L., entre outros, inerentes a esta falta sentida. Lamentava não se ter apercebido nem agradecido ainda em vida o enorme apoio que lhes tinham concedido. Tranquilizei-a. Certamente os seus pais dariam esse apoio com o maior gosto, nada esperando em troca. Bastava-lhes a companhia dos netos e saber que com muito amor se encontravam também a ajudar a filha e o genro. A minha amiga debilitada, já com mais de 90 anos, que seguia atentamente a conversa, acrescentou: “Confirmo tudo isso. Os meus pais foram para África e fiquei entregue aos meus avós. O meu marido também dizia que sentia sempre uma enorme saudade da sua avó por quem nutria um carinho muito especial. Infelizmente, não tive descendência, mas reconheço a importância do papel dos avós”. 

Fiquei em silêncio, absorvida nos meus pensamentos. Vieram-me à memória umas palavras do Papa Francisco que referiu: “A velhice é uma vocação. Não é ainda, e cada vez mais, o momento de tirar os remos do barco. Fiquei muito impressionado com o Dia para os Idosos que fizemos na Praça de S. Pedro. Ouvi histórias de idosos que se desgastavam pelos outros. É um grande dom para a Igreja a oração dos avós, é mesmo uma riqueza”. Olivier Clément dizia: “Uma civilização que não reza é uma civilização onde a velhice não faz mais sentido”. É algo belo a oração dos idosos. Nós podemos agradecer a Deus pelos benefícios recebidos para preencher o vazio da ingratidão que o circunda. Podemos interceder pelas expetativas das novas gerações e da sua dignidade bem como à memória e aos sacrifícios que os avós passaram. Uma vida sem amor é uma vida árida. Podemos dizer aos jovens amedrontados que a angústia do futuro pode ser vencida. Que há mais alegria em dar do que em receber. As palavras dos avós têm algo de especial para os jovens. E eles sabem isso. As palavras, que a minha avó me entregou por escrito, no dia da minha ordenação sacerdotal, ainda as trago comigo no meu breviário. Leio-as e fazem-me bem. Recordo a alegria transbordante de um abraço entre os jovens e os idosos. Peço esse abraço”.

Termino este artigo com um enorme reconhecimento, um bem-haja e um hino de louvor aos Avós, que ao longo da história, entre gerações, têm permitido a construção de um mundo mais justo e solidário.



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