Espaço do Diário do Minho

Mestre Carlos Baptista, herói esquecido
12 Jul 2018
Ana Pereira

O Mundial de Futebol está quase a acabar e brevemente saberemos que equipa europeia será campeã do mundo e os holofotes da fama incidiram sobre ela enchendo páginas de jornais e ecrãs de televisão, tal qual aconteceu há dois ano quando Portugal se sagrou campeão europeu de futebol enchendo de glória um país que se viu catapultado para uma notoriedade que poucos esperavam. Numa altura em que a disseminação da informação é feita a uma velocidade alucinante, os heróis fazem-se num instante e a glorificação é quase imediata.

Os clubes homenageiam aqueles que deixam marca no seu clube não permitindo que o véu do esquecimento apague a memória dos seus feitos. Mas, uma vez por outra, as injustiças cometem-se e algumas pessoas são votadas ao olvido impedindo que novas gerações reconheçam o trabalho daqueles que muito contribuíram para a glória do seu clube.

Relembremos os anos setenta e oitenta do Sporting de Braga, relembremos o título de campeões nacionais de juniores em 1977 e o título de campeões nacionais em juvenis de 1981. Relembrar estes títulos é relembrar o Mestre Carlos Baptista, treinador destas equipas que, no velhinho campo da Ponte, ajudou centenas de atletas a crescerem a todos os níveis. Discreto, sereno, avesso a vaidades e humilde até ao tutano, conseguiu num pelado cheio de bolotas criar duas fornadas de campeões.

Carlos Baptista é todos os anos homenageado pelos seus campeões num encontro anual em junho onde se recordam histórias de orgulho e a sabedoria do Mestre. Carlos Baptista anda pelos oitenta anos, atingiu patamares únicos como futebolista e pôs o país inteiro a falar da formação do Sporting de Braga.

Foi pela mão do meu pai que me habituei a ir todos os fins de semana de manhã ao Campo da Ponte ver os jogos do meu Braga. Enquanto apanhava bolotas e saltitava de um lado para outro emitindo opiniões sobre tudo e todos do alto da sabedoria dos meus quatro, cinco anos, fui aprendendo a perceber o que era um fora de jogo, o que era um livre, quando se marcava uma grande penalidade e todas as outras regras do futebol.

Num mundo marcadamente masculino aprendi a apreciar um desporto e um clube do qual me enamorei desde muito cedo. Carlos Baptista saia do balneário com os seus atletas e passava no meio de nós. De compleição magra, de mãos nos bolsos das calças, levava os seus meninos para o campo, o campo onde cair numa qualquer disputa de lance deixava marcas que me doíam muitas vezes a mim.

Hoje doí-me não ver o meu clube do coração e do coração de Carlos Baptista não reconhecer o homem que com tão pouco fez tanto e de quem se dizia na altura que até de pedras fazia jogadores. Todos os anos espero ver na Gala do Sporting de Braga o seu nome ser referido fazendo justiça a um homem a quem o clube muito deve.

As verdadeiras homenagens devem ser feitas enquanto ainda temos tempo de abraçar as pessoas e de lhes agradecer pelos seus feitos transpondo para a memória coletiva um nome que é sinal de tudo o que futebol tem de melhor.

Enquanto é tempo, façam justiça ao Mestre.



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