Espaço do Diário do Minho

Retalhos
9 Jul 2018
Paulo Fafe

Era uma vez… e o cronista ficou a olhar para o espaço em branco sem ter um assunto sobre que escrever. Até que alguém disse, não há direito, e o cronista perguntou por que razão ele dizia que não havia direito, sim o que é que estava torto. Então o senhor acha que há direito de se estar a lutar contra a precariedade e o governo quer contratar enfermeiros a termo certo?

Acha que este governo tem algum pingo de credibilidade para falar de estabilidade no emprego, aumento de natalidade, regresso de emigrantes, quando é o próprio governo que não cria uma plataforma social estável que permita uma vida normal? Sem resposta deixei esta voz inquieta a falar sozinha porque, na verdade, não tenho outra resposta senão dizer-lhe que tem razão.

Acabaria aqui a crónica se aos ouvidos do cronista não chegasse outra razão em forma de protesto. Era alguém que falava sobre os incêndios e estava espantada com o número de fogos já deflagrados este ano, que, segundo disse o responsável, era superior ao do ano passado mas que a pronta e eficaz intervenção teria apagado.

Eu entendo que a divulgação da tragédia, seja ela qual for, aumenta o número dos prevaricadores por razões de ordem psíquica que uma vez já aqui abordei e não volto a repetir. Penso mesmo que quanto menor for o “espetáculo” menor serão os “atores” porque estes não gostam de palco pequeno.

Há greves por todo o lado, dizia uma senhora idosa. É assim mesmo retrocava uma franganota de calças rotas: é a luta corporativa: cada classe laboral reclama por melhorias salariais, por ganhar o tempo perdido, por aumento de pessoal.

Agora pensa o cronista: este é um retalho grande, é um pedaço enorme que tem um peso e uma cor social diferente da cor partidária. São os direitos de corpo a sobreporem-se ao direito coletivo. Mandar em democracia é tão difícil como tentar colocar uma orquestra metálica a tocar afinada com instrumentos de corda.

A natalidade, o envelhecimento da população, a emigração de quadros qualificados, absorção dos migrantes, são grandes retalhos deste nosso tempo. A natalidade não se resolve apenas com estabilidade no emprego, ou mesmo com melhorias salariais, são retalhos reais da manta social portuguesa.

Os casais preferem ter cães (a quem chamam de filhos), do que ter filhos que os acordam porque choram da barriga, porque mudam os dentes, porque crescem e depois são os estudos, o acesso ao superior, o emprego… o casamento falhado, etc. etc.

É uma geração que descarta o ideal de família porque não teve de lutar por nada, tudo lhe foi oferecido de bandeja, nunca deram fé de lhes faltar dinheiro para os festivais, automóvel precoce; então como hão-de suportar os trabalhos da maternidade e da criação? Quando os pais envelhecem mandam-nos para os lares que são um sossego para quem tem de ir de férias, ir a festas e passeatas. Descansam a alma no armazenamento sénior.

A natalidade é um problema mas a longevidade é outro que ninguém quer resolver a não ser alarando os que já tropeçam. Que enormes retalhos estes! Por que razão emigram os nossos melhores quadros? Porque aqui não há lugar para quem sabe muito e pagam pouco aos que sabem pouco!

Quem sabe muito quer ganhar muito mas esbarra com a política de salários baixos. Daí a dicotomia. Estes retalhos hão de ser cosidos uns aos outros e quem o souber fazer bendito seja.

Não é fácil fazermos uma manta formada por retalhos variados. Saber fazer a manta, é deixar que cada retalho mantenha a sua cor. Nunca uma manta de uma só cor. Nunca, porque não é natural. Natural é ser diferente. Natural é escolher o retalho.



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