Espaço do Diário do Minho

O automóvel e a cidade – Parqueamento em Braga
27 Jun 2018
Dinis Salgado

Tendo em conta a mentalidade e cultura da maioria dos utilizadores lusos do automóvel, há que considerar que eles adoram chegar com ele a todos os lados e em qualquer circunstância, mesmo que tenham de infringir a legislação vigente e, até digo mais, alguns não se importavam nada de o levar para a cama; e, no caso que nos interessa, os bracarenses não fogem à regra e devem pecar, quase sempre, por excesso. 

Sou do tempo em que, por exemplo, se ia cómoda e calmamente de automóvel até aos restaurantes, cafés, lojas e demais serviços da cidade, fosse para tomar ou mastigar qualquer coisinha, comprar uma peça de vestuário ou tirar urna certidão de nascimento, no Campo da Vinha, na Arcada ou na rua dos Chãos; e isto, obviamente, quando Braga não passava de uma cidade fechada, doméstica, provinciana e, sobretudo bisbilhoteira que se levantava com os galos e se deitava com as galinhas. 

Mas, a situação, mudando celeremente, fez com que se fosse substituindo o transporte particular pelo transporte público; todavia, a adaptação nem sempre tem sido fácil, sobretudo quando esbarra com inúmeros interesses individuais e com aquele bichinho que rói e corrói e se chama comodismo, status ou afirmação pessoal. 

Até porque, se fizermos uma análise à forma como os condutores diariamente se deslocam de e para a nossa cidade, concluímos que mais de 80% o fazem sozinhos ou acompanhados de um pendura; o que se traduz em engarrafamentos, dificuldades de estacionamento e demais constrangimentos, a ponto de haver zonas da cidade onde é quase impossível parar para dar um recado, pôr uma carta ou encomenda no correio, recolher ou largar uma criança na escola. 

E o caso mais elucidativo desta questão acontece, a toda a hora, na rua do Raio, onde se concentram vários serviços públicos, para além do Centro Comercial do Rechicho; e, então, ver ali engarrafamentos e carros parados em segunda fila é uma constante do dia a dia: o que acarreta transtornos de criar bicho a quem tenha de circular nessa rua. 

Pois bem, preparando-se a Câmara Municipal, após voltar à posse dos parquímetros anteriormente a cargo de uma entidade privada, para legislar sobre o melhor uso e localização a dar aos que existem e aos que venham a ser implementados, entendo que uma consulta alargada a residentes, comerciantes, industriais e organismos públicos das ruas envolvidas ou a envolver se torna imprescindível; até porque estes cidadãos estão direta e naturalmente envolvidos no assunto; ademais, não seria de excluir a hipótese de um alargado debate público sobre o tema, através das juntas de freguesia e dos órgãos locais de comunicação social. 

Ora, como cidadão e no exercício pleno dos meus direitos e deveres de cidadania ativa, aqui abro o debate, exarando a minha opinião sobre os locais e preçário que entendo ser os mais apropriados e óbvios para uma utilização justa dos parquímetros; obviamente pondo de parte, por exemplo, a medida radical de, através do uso do transporte público, se impedir o acesso do transporte privado ao casco urbano, o que, doa a quem doer, num futuro não muito longínquo terá forçosamente de acontecer.

Então, a meu ver, devia ser obrigatório o uso e implementação de parquímetros nas ruas onde existam mais comércio, indústria e serviços públicos (escolas, centros de saúde, hospitais, finanças, correios, etc.etc.etc.), porque esta seria a única forma de pôr fim ao estacionamento prolongado ou o dia inteiro e irregular como em dupla fila ou em cima dos passeios e, assim, permitir a qualquer cidadão automobilizado o acesso, por necessidade, a esses locais; e igualmente devia ser utilizado o estacionamento limitado no tempo e no mesmo local, por exemplo, no máximo de duas a três horas, abrindo, a possibilidade a quem precisa de facilmente arranjar parqueamento. 

Agora, quanto ao preçário a praticar, este devia ser mais barato do que o praticado no aparcamento (em locais abrigados, cobertos e vigiados); e claramente sendo um serviço público a sua primeira preocupação deverá ser o bem comum e a ausência do lucro pelo lucro; igualmente esse preçário devia ir aumentando conforme o tempo de estacionamento. Sabemos que Braga é uma das cidades cujo preçário dos parquímetros é demasiado caro, inclusive na primeira hora, em relação à maioria das cidades: e esta política não se reveste de um cariz verdadeiramente social, justo e de boa prática gestionária de parqueamento que devem, ser as primeiras preocupações de quem gere a res pública. 

Espera-se, pois, que as medidas que venham a ser implementadas pela Câmara Municipal sobre esta problemática caminhem ao encontro de melhor uso dos parquímetros do que aquele que, no momento, está a ser feito e tenham sempre em conta uma maior e ampla justiça social. 

Então, até de hoje a oito.



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