Espaço do Diário do Minho

Na verdade ou pela fraude…
25 Jun 2018
António Sílvio Couto

Não preciso de me enfeitar para ver reconhecido o que sou e o que valho!

Foi desta forma algo rápida, ríspida à mistura com o razoável, que um artista/escritor, de origem catalã, se apresentou… sem complexos nem artifícios.

De facto, há gente que se empenacha para se fazer passar por aquilo que não é. Há gente que usa artimanhas para ser aquilo que nunca foi. Há gente que usurpa funções para parecer aquilo que acha que poderia ou desejaria ser.

Há gente que tenta enganar com a imagem que pretende ‘vender’. Há gente fútil que se arvora em jeitos complexos, mas facilmente desmontáveis. Há gente que construiu para si mesma uma pretensão inacessível e, porventura, oca e disfarçada.

É diante destas e de outras aparências que será preciso que haja quem as afronte e confronte sem medos, mas em verdade. Com efeito, uma das maiores fraudes que podemos cometer para com os outros é a de fazermo-nos passar por aquilo que não somos, sobretudo, quando se quer dar uma boa impressão à custa do engano e talvez da mentira.

Com alguma facilidade podemos ver gente a apresentar-se como ‘doutor’ (sendo um mero licenciado), por ‘mestre’ (mesmo à boleia do dito ‘processo de Bolonha’) ou por ‘engenheiro’ (quando só passou pela escola apenas de raspão)… Torna-se uma patranha sublimar neste país, onde se quer fazer valer as pessoas pelos graus de estudos e não pela correta aquisição de conhecimentos, que deveriam ser cultura a sério, sábia e séria.

= Em tempos não muito recuados era habitual ver, no endosso dos cheques a emitir, alguma referência a um título/honraria/qualificação humana – dr., eng., padre, etc. – dando a impressão em quem recebia o dito valor em cheque que tal figura era respeitável e com alguma credibilidade… Ora, isso nem sempre era verdade – até porque bastaria influenciar a entidade emissora de que tal pessoa poderia (mesmo que não fosse certo) induzir a esse disfarce e engano – permitindo viver na camuflagem a quem se apropriava de algo que não possuía, mas que lhe daria uma espécie de estatuto para o engano e a usurpação de identidade e/ou de função.

Felizmente agora os cheques – se ainda usados – não ostentam os tais títulos, nivelando todos pela condição de cidadania sem trejeitos de aproveitamento por parte de pessoas sem nível nem credibilidade, seja lá qual for a instância onde possam desenvolver a sua atividade… profissional, social ou cultural.

= Se estivermos atentos não será muito difícil perceber se uma pessoa fala, se comporta ou mesmo se apresenta tendo em conta a instrução que diz ter ou mesmo aquilo que aparenta. Bastará reparar na construção das frases na conversa ou no discurso.

Bastará questionar sobre assuntos que diz conhecer para, com alguma facilidade, se poder percecionar o desencontro entre as partes, tanto no diálogo como na referência dos conhecimentos. Bastará deixar que o ‘desconhecido’ se mostre para que saibamos se estamos perante alguém verdadeiro ou um possível impostor.

Naquilo que tenho visto e vivido, é preciso ser cuidadoso com os primeiros contactos. Estes não podem ser um estendal de banalidades nem uma incorreção de estilos. Tenho para comigo que é preciso ser prudente, observando mais do que querendo deixar ‘boa impressão’ em quem se tem como interlocutor.

Recordo como lição dum venerável superior que me dizia, citando uma frase bíblica: ‘é preciso ser prudente como a serpente e simples como as pombas’… por esta ordem, não trocando a apresentação dos fatores, pois se tal acontecer seremos, facilmente, engolidos pelos mais espertos, que até podem nem ser mais inteligentes do que nós.

Neste mundo em que vivemos, onde tropeçamos a cada momento (talvez mais do que seria desejável) em gente que usa mais da manha do que da sabedoria, será importante não se deixa ludibriar com roupas aparentemente de marca – talvez sejam antes de contrafação – subtilmente arranjadas e perfumadas, induzindo em erro e engano os mais incautos… Todos os cuidados serão poucos e as prudências nunca serão em excesso, pois há gente que nada vale, mas se insinua; há gente que pouco presta e se acha imprescindível; há gente sem valor moral que facilmente pretende dar lições aos outros, mas não as colhe para si…

De facto há expetativas atendidas, outras que são defraudadas e tantas outras imerecidas. Verdade, precisa-se.



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