Espaço do Diário do Minho

Acabar com o sofrimento ou acompanhar na paixão?
7 Jun 2018
Maria José Vilaça*

Tenho tentado perceber o que pode levar as pessoas a hesitarem na sua resposta perante a questão da Eutanásia. Por um lado, é um assunto que tem levado muita gente a pensar, o que é bom. Por outro lado, pergunto-me qual a dúvida?

Afasto as razões políticas e fundadas em determinadas agendas ideológicas que não valorizam a vida humana e que pretendem instalar uma ditadura em que, em última instância, serão os serviços do Estado a decidir quem vive e quem morre, de acordo com a conveniência do dito Estado. Se é o Estado que decide onde fazer os investimentos na área da saúde, então a decisão entre investir na eutanásia e não nos cuidados paliativos, é movida por constrangimentos económicos e ideológicos. Da mesma forma que hoje é o Estado a decidir os conteúdos do ensino escolar, substituindo os pais na sua missão educativa. Podia continuar com um sem número de exemplos, mas no fundo estamos sempre a falar da prepotência de um Estado que parte do princípio de que as pessoas não sabem cuidar de si nem dos seus. Ou, indo um pouco mais longe, uma agenda que tem como base o objetivo de esvaziar a família das suas funções o que inevitavelmente gera uma massa indistinta de pessoas, facilmente manipuláveis.

Mas para o comum das pessoas o que está em causa é como lidar com o sofrimento, e em última análise como é que cada uma lida com o seu próprio sofrimento, com a dor, a solidão e a morte. Nestas coisas, as decisões passam pelas experiências pessoais: ou pelas experiências positivas de intervenção e acompanhamento, ou pela terrível experiência da desconfiança que leva ao medo, ou ainda pela experiência da impotência e da solidão diante de circunstâncias particularmente dolorosas. No entanto, uma decisão desta natureza precisa de ser também informada pela experiência dos países onde a eutanásia já é legal. E não se pode dizer que sejam experiências positivas. São aliás bastante assustadoras!

Tudo isto me tem levado a refletir e a levantar algumas questões que aqui partilho:

Porque será que as pessoas quando estão deprimidas, isoladas, com falta de cuidados, sem companhia e sem o carinho de alguém, expressam o desejo de morrer? Será que querem mesmo morrer ou querem a morte da situação concreta que estão a viver? Não será um abuso confundir o desejo de ser amado com o desejo de morrer?

Que ninguém gosta de sofrer é um dado que apenas nos revela que a pessoa humana é feita para ser feliz. Isso quer dizer que diante do sofrimento a única solução é a morte? Na verdade, a morte apenas acaba com a vida. Não acaba com o sofrimento.

Nos animais, sim, a morte é a solução para o sofrimento. Então nós as pessoas, o que temos de diferente para sermos assim “condenados” a sofrer sem que nos autorizem a acabar com a vida num ato “dito” de compaixão? O que temos de diferente, poderíamos resumir em três pontos: Autoconsciência – que nos permite dar um sentido ao sofrimento; Liberdade – que nos permite escolher que sentido queremos dar ao sofrimento; Forma de amar – que nos permite perceber que a solução do sofrimento pode estar no amor.

Verificamos hoje, na cultura ocidental, em especial, uma crescente dificuldade em articular estas duas dimensões do amor e sofrimento. Talvez até porque se confunde o amor com um mero sentimento ou emoção, algo fortemente investido por uma necessidade de prazer e de felicidade imediata, ainda que fugaz. Mas também verificamos que a escolha de não amar, não conduz à felicidade. O sofrimento, só por si, também não é adequado ao desejo de felicidade que o homem tem no seu coração. Na verdade, o homem não deseja nada que seja mau, a não ser se o confunde com algo de bom. Esse é, aliás, o problema da eutanásia. Parecendo uma intervenção destinada a aliviar o homem no seu sofrimento, na verdade é um ato destinado a provocar a morte.

Muitas vezes a morte é encarada como a única solução para o fim do sofrimento e é isso que leva as pessoas a classificar a eutanásia como um ato de compaixão. Mas sabemos que ninguém deseja realmente morrer. O que todos desejamos é viver, ser felizes e amados. Mesmo com dificuldades e obstáculos que incluem doenças ou circunstâncias complicadas de várias naturezas. Estas, abalando o ideal de viver feliz e ser amado, levam as pessoas a pensar que a vida deixou de ter valor e dignidade. Não será isso o resultado de uma visão instrumental da vida? Só é digna se tem utilidade. Sendo assim, desde logo se levanta a questão de quem decide da utilidade e do valor da vida!

Se ouvirmos o interior do coração de cada pessoa, percebemos que a vida humana tem um valor absoluto em si, que não depende da sua funcionalidade ou utilidade. A inteligência com que olhamos a realidade, usada para olhar a nossa realidade interior, o nosso coração, dá-se conta de que isto é uma verdade intuitiva.

O psiquiatra Viktor Frankl, judeu, que primeiro formulou a terapia pela busca do sentido, a logoterapia, dizia que o homem podia suportar tudo desde que encontrasse um sentido para o fazer. Nos casos mais difíceis da vida a capacidade de ultrapassar as dificuldades encontra-se no sentido da vida. Foi assim que ele próprio sobreviveu ao campo de Auschwitz e que depois de liberto, sobreviveu à solidão, numa realidade onde todos os seus tinham desaparecido. As perguntas que devemos então fazer e para as quais devemos ajudar cada um a encontrar respostas, são as perguntas sobre o sentido da vida, sobre o sentido do sofrimento, sobre a liberdade diante dos limites, sobre o valor da fragilidade, etc…

O que significa escolher a morte? A morte não traz respostas. Só no contexto da vida acompanhada e amada, no contexto de uma relação, no contexto de um encontro, se encontram as respostas. A morte, aliás, é o fim da possibilidade de encontrar respostas. É o fim da possibilidade de cada um de nós se questionar também sobre o seu papel na vida dos outros e sobre a forma como está disposto a acompanhar, a partilhar e a sofrer com o outro, na medida do amor que tem por ele.

Quantas vezes a nossa resposta diante da dor, aparentemente intolerável de alguém, nos coloca em causa? Quantas vezes pensamos: que resposta temos para dar, como podemos ajudar? Que eco que faz em nós o sofrimento dos outros. Optar pela eutanásia é sempre optar por uma resposta que nos iliba do confronto com a nossa própria vulnerabilidade e fragilidade, incerteza e insegurança. Mas, não é verdade que é precisamente na nossa pequenez diante das circunstâncias, que tantas vezes se revela a beleza, a solicitude e a grandeza abnegada de uma humanidade amadurecida?

Compaixão é ser a companhia na paixão.

*Fundadora e Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Psicólogos Católicos
Membro da TEM/CDS



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