Espaço do Diário do Minho

Que professores para o século XXI
6 Jun 2018
Dinis Salgado

Longe vão os tempos em que à escola competiam, quase em exclusivo, as tarefas de ensinar e educar; e ao professor conferidas eram as competências e os meios de único agente executor de tão nobre como espinhosa missão; por isso, se dizia que ao abrir uma escola se fechava uma cadeia.

Modernamente, com o avanço das novas tecnologias de informação e comunicação, acontecem mudanças significativas em todos os ramos da atividade humana; e a máquina reivindica já um papel determinante na transmissão de conhecimentos e influência no ato educativo, a ponto de pretender substituir o professor, pondo, assim, em causa a existência da própria escola e do ensino/aprendizagem e educação formais.

Todavia, há uma verdade que não pode ser escamoteada e esquecida pela influência inquestionável nesta problemática: o investimento em Educação, desde que funcione, é a melhor estratégia para erradicar a pobreza; ora, este investimento passa, necessariamente, não só pelos recursos materiais, humanos e de apoio à Família, mas também pelo envolvimento de toda a sociedade.

Pois bem, perante esta nova realidade, há que definir que Educação queremos para o século XXI, como igualmente os agentes que a vão levar a cabo e a Escola onde terá lugar; e, assim, parece consensual entre pedagogos, psicólogos e sociólogos que são quatro os pilares em que deve assentar essa Educação: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver em comunidade e aprender a ser; e à Educação que, fundamentalmente se limitava ao ato de ler, escrever e contar, dá agora lugar uma Educação onde a comunicação, a colaboração, a criatividade e o pensamento critico tem lugar privilegiado.

Assim sendo, a pergunta toma-se inevitável: que professores para esta Educação de futuro? Ora, o perfil do professor de futuro assenta nos seguintes pressupostos: ser um permanente aprendiz, fazer formação constante e em variadas plataformas, adaptar-se aos novos métodos e estratégias de ensino/aprendizagem, adaptar-se aos novos perfis dos alunos e ser um facilitador e orientador que ajuda a tomar decisões.

Depois, como consequência, devem os professores do século XXI possuir as seguintes qualidades psicológicas e capacidades técnicas: firmeza de convicções e de ideias sobre as coisas, disponibilidade para ouvir e atender os alunos respeitando a sua individualidade, saber usar e dominar as novas tecnologias, ser capaz de falar com os pais dos alunos e restante comunidade educativa, trabalhar em grupo e dialogar com os outros docentes para, em conjunto, definirem estratégias e resolverem problemas, evitando, assim, que cada um faça ou diga coisas diferentes.

Agora, certo como é que o professor de outros tempos, o magíster dixit, único detentor da verdade e do saber, disciplinador, condutor, impositor e único juiz não tem lugar na Educação nem na Escola do futuro, o mais importante é saber se conseguimos os professores necessários para esta Escola e esta Educação; porque confrontámo-nos já com a séria realidade de os candidatos a professores serem cada vez em menor número e portadores de médias escolares muito baixas, segundo dados da Direção-Geral do Ensino Superior no ano de 2017.

E isto acontece porque os jovens têm da profissão docente a perceção de que ela: não é atrativa, não garante emprego seguro e imediato, é uma profissão desgastante e socialmente desvalorizada e desacreditada, o professor perdeu autoridade e prestígio, os alunos são indisciplinados e desrespeitadores e há imensas dificuldades de colocação, quase sempre longe de casa e sem apoios e incentivos materiais e profissionais; e, sobretudo, existe um clima social negativo e, por vezes, hostil, sobre a Escola e os professores.

Então, para atrair à profissão docente os melhores estudantes que temos de fazer? A solução passa inevitavelmente pela existência de um pacto social sobre a Educação que queremos e em que Escola e em torno do qual toda a sociedade se una e o encare de forma positiva e resiliente; e, mormente, como uma emergência nacional, em prol de um futuro mais progressivo, mais justo e mais livre e onde uma cidadania ativa, participada e crítica tenha o lugar de enfoque que merece.

E não nos esquecendo nunca de que, para o realizarmos com êxito, o futuro já começou ontem.

Então, até de hoje a oito.



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